Sobre este blog

Este blog publica exclusivamente conteúdo original da minha autoria (ver à direita) e serve o único propósito de garantir a minha imortalidade:

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Fumo e Espelhos

Era o belo fim de tarde de um plácido dia de Outono quando ele estacou na soleira da porta da casa branca da sua infância e inspirou fundo. Ajeitou o colarinho e olhou de relance para os canteiros, sempre floridos e bem tratados, imutáveis desde que se lembrava, animados pela brisa fresca e suave que embalava o mundo. Mas não se perdeu nas recordações e levantou o punho, batendo três vezes na madeira da porta. Esboçou o seu melhor sorriso e pigarreou, olhou uma última vez para trás, para a rua deserta, de árvores despidas, e aguardou.

“Quem é?”, perguntou uma voz do outro lado da porta, uma voz familiar, trémula, mais velha que o próprio tempo, que o encheu de ternura.

“É o teu filho, minha mãe!”, respondeu ele sorridente, e ouviu a chave a rodar na fechadura com uma perceptível ansiedade e a voz da mãe, do outro lado, transbordante de alegria.

A porta escancarou-se e ela abraçou-o com força, beijou-o nas faces e falou das saudades que tinha, do tempo há que não o via, do frio que fazia na rua, vem para dentro meu filho, ainda te constipas, deixa-me ver-te, estás tão bonito e elegante.

“Olha trouxe-te isto…” disse ele e estendeu-lhe um grande ramo de rosas brancas, ai tão lindas, meu querido, és tão atencioso, espera, deixa-me pô-las num jarro, vem, entra aqui para a cozinha, decerto tens fome, vou-te fazer um lanchinho, que é feito de ti, que tens feito que nunca mais vieste visitar a tua pobre mãe, meu filho, meu anjo, é tão bom ter-te aqui, e mais uma vez abraçou-o cheia de carinho e a comoção trouxe-lhe lágrimas gordas ao canto dos olhos. Ele limpou-as com a ponta dos dedos e fitou o seu rosto ebúrneo, com o seu olhar lânguido e as rugas que se insinuavam nos cantos dos olhos e da boca, e achou-a linda.

“Minha querida mãe… Desculpa… Agora sou um homem ocupado, tenho tido muito trabalho e por isso não tenho tido muito tempo para ti, não se faz, estás aqui tão sozinha…”

“Oh meu filho não te preocupes comigo, conta-me a tua vida, o que fazes, quem és? A solidão não me dói, dói-me mais sentir que já nem conheço o meu próprio filho…”

“Eu sei mãe, eu sei. E é por isso que eu te quero compensar tudo isso, e tudo o que fizeste por mim toda a minha vida. E quero agradecer-te… Olha também te trouxe isto.”

E tirou de um saco que tinha trazido com ele uma caixinha refinada.

“É um chá muito especial importado da China. Sabes que eu não aprecio chá, mas disseram-me que este era uma maravilha. Aproveita e experimenta-o, agora que vamos lanchar”.

“Oh meu filho, és amoroso, obrigada por te teres lembrado…”

Lancharam os dois e ele contou-lhe dos seus negócios, de como se tinha tornado num empresário de sucesso, de como estava a ganhar bem e das viagens fantásticas que fazia regularmente, e dos sítios maravilhosos que já tinha visitado.

Falaram pela noite fora, muito para lá da hora de ir dormir da sua mãe. Eventualmente ele disse-lhe que tinha uma surpresa para ela e contou-lhe que lhe ia oferecer uma viagem a um daqueles sítios com praias de areia branca e coqueiros e água transparente, com tudo pago num hotel de luxo, e sim não te preocupes, eu quero mesmo oferecer-te, tenho dinheiro para tal.

“Mas não é tudo o que tenho para te contar!”, acrescentou. Os olhos da mãe abriram-se de curiosidade, como os de uma criança pequena.

“Mãe… Eu conheci uma rapariga.”

Falou-lhe de como ela era bonita e inteligente, de boas famílias, de como gostava dela e de como estava feliz. E contou-lhe que se iriam casar. Os olhos da sua mãe estavam marejados de lágrimas de alegria.

“Por isso prepara-te minha querida, daqui a uns poucos aninhos deves ser avó!”

E ela chorou de comoção sentido-se feliz como não se sentia há anos.

Fez-lhe ainda muitas perguntas mas eventualmente a sonolência venceu. Disse que se ia deitar. Ele levou-a à cama.

“Já não me posso em pé meu querido… Gostei muito de falar contigo. O teu quarto está todo arrumado e tens a cama feita como sempre… Passo as semanas na esperança que apareças cá!… Estou desejosa que chegue amanhã para contar todas as novidades às minhas amigas… Anda cá meu filho. Amo-te tanto.” – Beijou-o com ternura. – “Fizeste de mim uma mãe muito orgulhosa… Boa noite para ti.”

“Boa noite mãe.” - disse ele fazendo-lhe uma festa nos cabelos grisalhos. Desligou a luz e fechou suavemente a porta do quarto.

Não tinha sono, obviamente. Passeou-se por aquela casa cheia de recordações, fotografias da sua infância e adolescência, do tempo em que o seu pai ainda era vivo, momentos de outrora, instantes de felicidade para sempre aprisionados em molduras, imóveis, a acumular poeira.

Estacou por fim defronte à janela da sala, por onde entrava a luz prateada das estrelas. Estava uma noite fria e silenciosa. Ficou ali uns largos minutos a fitar o vazio até que achou que já passara tempo suficiente.

Voltou à porta do quarto da mãe e abriu-a lentamente. Acendeu a luz.

Ela não acordou.

Jazia de olhos fechados, um sorriso ainda a insinuar-se-lhe nos lábios, estática.

Invulgarmente estática.

Ele aproximou-se dela e pegou-lhe no pulso delicado e tentou ouvir-lhe a respiração.

Nada.

Suspirou.

O veneno do chá surtira efeito.

Retirou do bolso um chaveiro, e remexeu nas chaves até encontrar uma cinzenta, pequena.

Foi em passos lentos até à sala onde tinha deixado a sua pasta de executivo.

Sentou-se no sofá e usou a pequena chave para abrir a pasta. Ficou a olhar absortamente para o seu conteúdo.

“Fizeste de mim uma mãe muito orgulhosa” – pensou.

Era tudo o que ele queria ouvir.

Olhou para as rosas brancas que a mãe tinha posto num grande jarro azul.

Expirou longamente e enfiou na boca o cano do revólver que estava dentro da pasta.

Disparou sem hesitação.

domingo, 13 de janeiro de 2008

The Gathering

sábado, 12 de janeiro de 2008

Reportagem Fotográfica

Muitas foram as palavras que escrevi no post "O Berço da Vida" para descrever a casa onde habito, mas uma imagem vale mil palavras e por isso hoje optei por tirar umas fotos à minha cozinha e marquise para que aqueles que não as conhecem possam ter uma melhor noção.

Este é o estado normal destas duas divisões, enjoy: