Sobre este blog

Este blog publica exclusivamente conteúdo original da minha autoria (ver à direita) e serve o único propósito de garantir a minha imortalidade:

Google caches WebPages regularly and stores them on its massive servers. In fact, by uploading your thoughts and opinions to the internet, you will forever live on in Google's cache, even after you die, in a sort of "Google Afterlife".
- In Is Google God?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O homem que só comia bananas

Uma homenagem que quis fazer mas que não saiu como eu queria. Tinha-a aqui guardada nos rascunhos do blog há imenso tempo e cheguei à conclusão que não fazia diferença nenhuma postá-la, apesar de tudo.


Num sítio muito distante daqui, onde o sol brilha mais e o tempo é indivisível, conheci um homem que amava uma bananeira.

A sua pele era escura e o seu sorriso branco e radiante porque ele tinha tudo o que alguma vez pudera desejar, que era um abrigo para passar a noite, água para matar a sede, e bananas.

Só de bananas pode viver o homem, descobri eu, mas só ao fim de um tempo, porque no princípio não acreditava, desconfiava, achava que ele me estava a querer intrujar com uma história para crianças.

Mas não, não estava.

Dia após dia após dia apenas as bananas eram o seu sustento e mais nada ele metia à boca para mastigar.

As suas tardes eram passadas a contemplar o mar, deitado à sombra da bananeira, o olhar perdido nos limites do horizonte, um ligeiríssimo sorriso a insinuar-se-lhe no canto dos lábios, aquele sorriso permanente e imperceptível daqueles que não sabem o que é estar feliz, apenas o que é ser feliz.

E quando o sol por fim mergulhava no mar, salpicando o céu de matizes, o homem abraçava-se à bananeira com muita força e ternura e fechava os olhos e com todo o carinho deste mundo murmurava-lhe numa voz muito meiga, muito baixinho, que ela era a coisa mais bela que ele alguma vez vira e que tudo o que pedia da vida era poder morrer abraçado a ela.

A árvore às vezes respondia-lhe de mansinho, com um agitar leve das suas grandes folhas, anuindo e reciprocando.

Então, quando o céu se enchia de estrelas, o homem levantava-se e acariciava-lhe a casca dura e macia e com um olhar transbordante de orgulho dizia-lhe: Como estás grande e forte!... Como cresceste e te tornaste imponente!

Começava a dar pequenos passos para trás, para abarcar o corpo enorme da bananeira e perdia-se numa contemplação embevecida.

Finalmente, acabava por virar costas e enfiava-se no seu abrigo de folhas onde dormia até à manhã seguinte.

Todos os dias, muito cedo, ainda o sol mal tinha começado a despontar lá na lonjura, podias ver o homem ajoelhado aos pés da bananeira, murmurando qualquer coisa incompreensível, os olhos cerrados e o rosto muito sério.

Depois levantava-se e trepava pela árvore, com muita ligeireza e toda a delicadeza, um cuidado extremo para não a magoar, e apanhava bananas, que comia, abençoando cada dentada.

No início tudo isto me perturbava muito, porque apesar de agir como aquilo a que qualquer pessoa como eu chamaria de um louco, o olhar deste homem era lúcido, sábio até.

E admitamos, se o único propósito que temos na vida é o de ser felizes, então ninguém neste mundo se poderia considerar mais bem-sucedido que aquele homem.

Que maior e mais importante sabedoria pode haver do que saber ser feliz?

Foi então que chegou um dia em que, não conseguindo conter mais esta curiosidade que já me roía as entranhas, dirigi-me ao homem com toda a humildade de que fui capaz, e perguntei-lhe , sem qualquer sarcasmo, cinismo ou escárnio, movido apenas pela mais pura necessidade de perceber, porque é que ele amava a bananeira daquela forma, porque é que ele só comia bananas e nada mais e como é que ele conseguia sentir-se tão feliz e completo assim.

Esperei que a resposta se coadunasse com o modo de vida do homem: imperscrutável, misteriosa e profundamente intrigante.

Mas não.

A resposta fez-me perceber que não só este homem não era louco, mas também que a lucidez e sabedoria que eu detectara no seu olhar não eram ilusórias. Falou e disse algo que em português seria parecido com isto:

No início eu sentia-me miserável, porque nasci com uma condição terrível, que é a condição de ser um assassino. Para poder viver precisava de comer, e para comer tinha de matar, pois não tinha forma de nutrir o meu corpo que não envolvesse tirar a vida a algum ser.

E como eu a invejava [à bananeira], vivendo, resplandecendo, crescendo cada vez mais alta, cada vez mais robusta, até se tornar mais imponente e majestosa do que qualquer outra coisa viva, e isto - comendo apenas a terra onde se sentava!

Então eu tentei comer terra também, mas fiquei fraco e doente e chorei, por estar condenado a sujar as minhas mãos com o sangue ou a seiva de vida inocente.

E amaldiçoei-me por ter nascido assim, incapaz de viver sem matar.

Ela, por sua vez, não só imaculada de pecado, ainda tinha a generosidade de me proteger do sol quente com a sua sombra e da chuva fustigante com a sua copa folhada.

Com os seus braços abertos para o céu, convidava gentilmente toda a vida a vir-se abraçar a ela, a viver nos seus ramos e por entre as suas raízes.

E esta gentileza teria mesmo com os que a magoassem, os pássaros que a escavassem e os homens que a decepassem, os vermes que lhe roessem as entranhas e a matassem. E mesmo na agonia da morte, nunca a ouvirias gemer, estrebuchar ou contorcer-se. Permaneceria num mudo silêncio e pereceria sem que ninguém disso se apercebesse, como se não quisesse incomodar ninguém com a sua dor.

Na sua sabedoria, inteligência e generosidade infinitas, de noite ela come ar mas de dia come luz e faz ar novo, garantindo que nunca ficará com falta dele. Não só o faz, como não se importa de partilhá-lo connosco, apesar de só sabermos destruir e de nem nos apercebermos de que sem ela não conseguiríamos viver.

Tudo isto ela faz silenciosamente, movida por um altruísmo inigualável, fazendo bem a todos e não fazendo mal a ninguém.

E tão sensata é que vive sem ter consciência de si, evitando assim todas as angústias de quem não sabe o que é mas sabe que é.

Eu, na minha condição miserável, desejei que, já que não faço bem a todos, como ela, pelo menos que não fizesse mal a ninguém.


Um dia, atónito, descobri que na sua imensa bondade, era mais uma vez ela que respondia à minha prece.

Criava, especialmente para mim, estes frutos compridos que amareleciam até cairem a meus pés, convidando-me a prová-los.

E tem vindo sempre a dedicar uma parte da sua energia a fazê-los continuamente, ainda que não lhe sirvam para nada. São feitos com o único propósito de serem comidos. E por isso eu como-os, sem remorso, e rejubilo, por não mais ter de ser um assassino.

E ela continua a fazê-los para que eu os coma sem que eu lhe dê nada em troca, até porque não há nada que eu lhe possa dar que ela verdadeiramente precise.

Ela não precisa de ninguém para viver. No entanto, tudo o que consegue dar aos outros, ela dá, não importa como a tratem.

É o ser mais belo que existe.


E por este motivo o homem amava aquela bananeira mais do que tudo e todas as manhãs lhe agradecia a sua tremenda generosidade antes de se alimentar.

Nunca na minha vida voltei a ver um amor tão verdadeiro como aquele.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O princípio

Envolvido por uma escuridão morna, era como se vivesse permanentemente naquele estado de delicioso torpor que te invade quando estás quase a adormecer. Os sentidos estão abafados, a consciência limpa e vazia e o único pensamento que te ocupa a cabeça é o de conforto, de aconchegamento e de paz.

O silêncio é total.

A temperatura, perfeita.

O corpo está tão relaxado que nem o sentes.

E assim ele existia, flutuando no vazio, alheio a tudo, desprendido de tudo.

Feliz, sob qualquer definição razoável de felicidade.

Sentindo-se completo.

E neste estado ele permaneceu inalterado por um longo prazo.

Suspenso.

Até que passado um imensurável período de tempo houve uma altura em que sentiu um abalo indefinível, que não dava para perceber de onde vinha nem o que era exactamente.

Um abalo que não altera em nada o teu estado de torpor mas que te faz sentir um formigueiro nervoso dentro de ti, não sabes bem onde nem porquê.

Estás confuso mas nem te interessa perceber a causa, ficas simplesmente à espera que a ansiedade passe e que tudo volte ao normal. E quando lentamente isso começa a acontecer, um novo abalo surge, idêntico mas intensificado, e assusta-te sem no entanto te despertar.

Na tua mente só corre o desejo de que aquilo te deixe em paz, que te deixem voltar ao teu tépido entorpecimento. Desejas isto tão convictamente que simplesmente começas a ignorar estes abalos na esperança que eles se vão embora espontaneamente.

Mas eles não te largam e vão escalando em intensidade e é como se alguém te abanasse vigorosamente para que acordes e tu te recusasses a acordar.

De repente percebes que consegues sentir o teu corpo e a sensação é desconfortável.

Sentes-te enclausurado, abafado.

Tentas esticar-te mas parece que não há espaço.

Tu só queres é adormecer mas de repente é como se tivesse ficado demasiado quente, demasiado apertado.

Tentas esticar-te de novo, mexer-te, mas tens os movimentos presos, estás rodeado por uma qualquer matéria constritiva e aquilo começa a incomodar-te sobremaneira.

Revolvendo-te acabas por encontrar um buraco nessa matéria e espremes-te lá para dentro, na esperança de ficares com mais espaço para poderes voltar ao teu delicioso torpor, que estás desejoso por recuperar.

Espremes-te mais e mais pelo buraco e ainda ficas mais constrangido no seu interior. Tentas libertar-te a custo, enquanto vindos não sabes de onde surgem uns sons abafados, exaltados, nervosos, que te redobram a ansiedade.

Mas porque é que foram interromper assim o teu conforto?

De repente, num espasmo, o buraco parece alargar e és empurrado por ele adentro, em violentas convulsões que te atordoam, uma após a outra. Percorres o seu interior, impotente, empurrado pelas suas paredes, até que de repente és expelido com brutidão e vais parar a um sítio completamente diferente de tudo o que conhecias e o impacto é tão forte que ficas em choque.

Uma luz fortíssima ofusca por completo a escuridão perfeita que te rodeava, ao mesmo tempo que és agredido por sons altíssimos e acutilantes que reverberam por todo o espaço e és invadido por uma horrível sensação de frio. Sentes-te a ser balançado, como se estivesses num barco num dia de tempestade e vem-te um enjoo enorme que nunca tinhas experenciado. Ao mesmo tempo começas a sentir uma angústia profunda, como se de repente precisasses urgentemente de algo mas que não sabes o que é e sem ainda teres acordado começas a entrar em desespero com toda aquela situação.

Porquê?

Que mal fizeste para te fazerem sofrer desta maneira?

Porque é que não te deixaram no teu maravilhoso e confortável estado de completa harmonia?

Neste momento ouves um som agudo ao mesmo tempo que recebes um impacto fortíssimo no corpo. Inicialmente ficas meio extasiado, assustado, tentando perceber que nova sensação é aquela e logo a seguir começas a sentir um doloroso ardor na zona onde recebeste o impacto.

Um ardor horrível.

E sentes-te tão injustiçado.

Porque é que continuam?

Como se já não estivesses a sofrer o suficiente.

E então, completamente desconsolado e ainda invadido por aquela nervosa angústia, sentes uma compulsão incontrolável para abrir a boca, como se isso te pudesse acalmar o desespero.

E berras.

O som quase que te rebenta com os ouvidos.

E para cúmulo dos cúmulos, nada disto te alivia, pois ao abrires a boca uma qualquer coisa entrou lá para dentro e enfiou-se dentro do teu corpo fazendo-o inchar de forma extremamente dolorosa.

Agora também te sentes a arder horrivelmente por dentro.

Em completa autocomiseração, totalmente magoado com o que te estão a fazer, a única coisa que fazes é berrar mais e mais e mais.

E lentamente isso alivia-te a angústia que tinhas começado a sentir.

Continuas a berrar enquanto és envolvido por uma qualquer coisa que te cura a sensação de frio. Voltas a sentir-te mais aconchegado.

As coisas estão a melhorar, mas ficaste tão magoado com todo o mal que te fizeram que não consegues parar de berrar.

Os sons tornam-se de novo mais abafados.

És pousado numa superfície macia, larga e quente, que instantaneamente te transmite uma sensação de calma, de consolo.

Sentes que és de novo agarrado, mas desta feita de uma forma diferente. Este agarrar é profundamente delicado e faz-te sentir protegido. É um agarrar carinhoso que te restitui o aconchego.

Os sons tornaram-se menos intensos e agora ouves uma voz dócil, meiga, maravilhosa, deliciada.

Sentes-te tão cansado, tão magoado por te terem feito passar por isto…

Dói-te tudo.

Esfregas a cara nessa superfície imensa e morna em que estás pousado e sentes uma protuberância rugosa, dura, por onde passas a boca.

Alguma coisa entra para dentro de ti, mas desta feita não te aleija.

É doce e agradável.

Queres mais daquilo. Procuras de novo a fonte daquela sensação, encontra-la e sem saber como, sabes perfeitamente como é que hás-de retirar mais desta coisa que te invade o corpo e te consola.

E à medida que te enches dela começas a sentir-te melhor.

Mais calmo.

E depois do choque passar apercebes-te que estás completamente esgotado.

O torpor regressa.

Finalmente regressa a paz.

Esperas nunca mais voltar a sofrer desta maneira.

E adormeces.

domingo, 20 de abril de 2008

O Beijo

Estendido ao comprido, no meio da minha náusea vejo uma forma surgir do negrume, aproximando-se rapidamente, aumentando até se despedaçar contra a minha testa, pulverizando-me de uma frescura que é a antítese daquilo que sinto neste momento.

Estou em choque por isso não percebo logo o que é e só consigo fitar o céu negro, carregado e distante, numa tentativa de evitar a tontura que me provoca a cidade à minha volta, que não pára de rodar como um carrossel. Perto de mim, um enorme edifício ergue-se de entre as lajes sujas do pavimento e precipita-se nas alturas. Parece que se debruça sobre mim, lá do alto, vacilante, enquanto toda a realidade que me rodeia se escoa por um ralo invisível que centrifuga tudo na sua passagem.

Começo a sentir a consciência a desvanecer-se pacificamente, os sons a apagarem-se, a sensação de frio a transformar-se num morno torpor e por um momento parece que estou suspenso no vazio e é como se voltasse ao ventre materno. Mas de repente ouço um sibilo e volto a sentir aquele choque frio, que me causa uma súbita vertigem de lucidez. Os sons regressam acutilantes, agressivos. O contínuo zumbir dos automóveis, a cacofonia das buzinas no tráfego congestionado, as sirenes angustiadas pela urgência anónima. E tudo isto parece próximo e distante ao mesmo tempo. Sinto um novo impacto gelado, desta vez na palma da minha mão e um reflexo faz-me fechar os dedos na tentativa de apanhar aquele invasor inoportuno que não me deixa deslizar docilmente para a inconsciência. Esfrego os dedos uns nos outros e sinto uma alteração no senso do tacto, que não consigo identificar de imediato, mas que de súbito me surge como uma epifania. Estão molhados. É agua.

Arregalo os olhos e agito a cabeça, tentando livrar-me do torpor e das cadeias de pensamentos recursivos que desabam dentro de mim, como uma fractal eternamente repetida de ideias que são sempre a mesma ideia, que se transforma num martelar metálico no interior do crânio. E num espasmo vejo uma torrente de estrelas cintilantes precipitando-se do céu na minha direcção e quando elas me atingem é como se fosse trespassado por um milhão de agulhas aguçadas e gemo de dor, mas depois apercebo-me que não dói.

Não é dor, de facto, mas ao mesmo tempo parece que me abre feridas na pele.

Não é dor, é frio.

Começo a ouvir um crepitar à minha volta e surge-me uma palavra na memória que nos insondáveis caminhos do pensamento me traz um significado que torna tudo claro.

É chuva. Apenas chuva.

Que se passa comigo, que já nem reconheço o fustigar de um aguaceiro?

Lentamente, vou ficando ensopado e o violento choque térmico traz-me ainda mais para perto da consciência. Olho em volta. Está escuro. Estou num beco escuro e malcheiroso. Fede a urina e a podridão. Na verdade apercebo-me que estou no meio de sacos do lixo e que o crepitar que me rodeia é causado pelo impacto da chuva no plástico dos sacos. O cheiro é pungente e sinto uma náusea redobrada, uma angústia que me surge das entranhas como se elas se quisessem evadir de dentro de mim.

E vomito.

Vomito para cima de mim próprio e começo a sentir no peito um calor que contrasta com o frio da chuva, mas que depressa desaparece, sobrando apenas um cheiro ácido e uma sensação viscosa.

Olho para o outro lado e vejo um par de olhos amarelos, escondidos na penumbra. É um gato. Está agachado debaixo de um contentor e fita-me fixamente. A chuva lava o chão enegrecido e vejo uma corrente de água escura a ser arrastada para o esgoto. A ela juntam-se vários afluentes e há um deles que me desperta a atenção pois a sua cor contrasta com a dos restantes. É um pequeno riacho de um vermelho-vivo, que ao juntar-se à corrente principal se dissolve no meio da massa escura que jorra pelo dreno, com um borbulhar apaziguante. Sigo com o olhar este rio vermelho em busca da sua fonte e é com surpresa que me apercebo que ele surge debaixo de mim. Há uma enorme poça vermelha debaixo do meu corpo, que se começa a dissolver com a água da chuva e a ser arrastada por ela.

Olho para a minha camisa e vejo-a ensopada de vermelho em toda a zona do ventre e com um sorriso angustiado começo a perceber. Na verdade, agora que recobrei uma boa parte da consciência começo a sentir a agulhada persistente logo abaixo do estômago e uma dor lancinante nas tripas. Levanto a camisa e vejo um buraco transversal a rasgar-me a barriga. Não tem mais de três centímetros de comprimento mas sangra abundantemente.

A náusea regressa. O estado de choque fez-me perder por completo a noção do tempo, fez-me mesmo esquecer durante instantes o comprido cutelo que me trespassou. Não deve ter acontecido há mais de cinco minutos e não fosse o fustigar da chuva eu já estaria agora a dormir o sono eterno.

Mas quis o destino que eu assistisse consciente ao fim da minha vida.

O mundo está prestes a chegar ao fim e no entanto a cidade continua indiferente, sempre zangada, os carros a buzinar, as sirenes a queixarem-se, os transeuntes a apressarem-se.

Eu vou morrer e a única testemunha disso vai ser um gato vadio.

A forma como ele me olha fixamente faz-me sentir que pelo menos ele é solidário para comigo, pelo menos ele não está indiferente. Por um momento interpreto o seu olhar como um mudo apelo à minha coragem e sinto-me agradecido.

E então rio-me com as poucas forças que tenho.

Estupor do gato. Só me olha assim porque tem medo de mim, que o tente atacar.

Não podia haver sentimento mais despropositado neste momento.

O meu riso transforma-se num choro baixinho, agoniado.

O gato tem medo.

Ele nem sabe o que é ter medo.

Medo tenho eu. Sinto-me apavorado. Em pânico.

Pois eu sei neste momento que estou a morrer.

E sei-o com uma clarividência crua, ingente, desesperante.

Vou morrer aqui neste beco escuro.

Fui assassinado.

E então lembro-me dos passos que se afastaram do beco, minutos antes.

Os passos do meu assassino.

E então lembro-me de como tudo aconteceu. Lembro-me de Pandora.

E sinto o peso da tragédia da minha vida abater-se sobre mim.

Pandora é a minha namorada, já desde há dois anos. Não me quero gabar mas neste campo não me safei mesmo nada mal - ela é um espectáculo de miúda: uma loira de vinte e oito anos, alta, inteligente, com um corpo fenomenal, enfim, completamente estonteante.

Conheci-a num bar e a química foi imediata. Sentei-me ao balcão e ela chamou-me logo a atenção. Trocámos olhares e sorrisos durante uns minutos e então ela veio ter comigo para me pedir lume. Acendi-lhe o cigarro, ela puxou uma boa baforada de fumo e expirou lentamente, com sensualidade. Ofereci-lhe uma bebida e começamos numa conversa amena que se prolongou por umas boas horas. Nessa mesma noite, já bem embebidos, estávamos enroscados num quarto de hotel a fornicar que nem coelhos. E como ela era extraordinária na cama! Fizémo-lo três vezes nessa noite e quando chegámos ao fim da última caí para o lado de exaustão.

No dia seguinte quando acordei ela já não estava lá, mas o seu aroma inebriante ainda pairava no ar. Ainda procurei por um bilhete, uma nota escrita à mão, mas ela não tinha deixado nada para lá do seu perfume. Obviamente que para ela tinha sido apenas uma noite de diversão, mas eu… eu fiquei completamente apanhado por aquela mulher e não a ia deixar escapar com aquela facilidade.

Nessa noite voltei ao mesmo bar. Como ela não estava lá sentei-me e esperei, mas ela não apareceu.

Obsessivo, isto não foi o suficiente para me fazer desistir. Passei a ir àquele bar todos os fins-de-semana na esperança de a encontrar e houve um dia em que finalmente a vi. No entanto, nesse dia não pude fazer nada pois ela estava acompanhada por um homem austero, dos seus cinquenta anos, que devia ser o pai dela. Senti-me intimidado e mantive-me no meu canto, mas apesar de tudo senti que tinha sido um bom sinal. Ela voltara ao mesmo bar uma segunda vez, por isso era de esperar que voltasse uma terceira.

Continuei a frequentar o bar assiduamente. Houve noites em que o empregado de balcão me disse que ela já tinha estado lá naquele dia, mas que saíra entretanto. Isto alimentava a minha frustração, ao mesmo tempo que me motivava para não desistir.

Ao fim de algumas semanas a minha paciência foi finalmente recompensada. Encontrei-a lá com duas amigas e não perdi tempo. Aproximei-me, sentei-me ao pé delas e apresentei-me. Ela olhava para mim com um certo embaraço, mas eu atirei umas piadas que desanuviaram o ambiente e em breve sentiu-se novamente à vontade comigo.

Nessa noite levei-a num passeio romântico, junto à margem do rio, comprei-lhe flores e segredei-lhe palavras bonitas ao ouvido.

Inicialmente parecia não estar disposta a um compromisso sério, mas encontro após encontro fui tentando conquistá-la. Levei-a a jantar aos mais finos restaurantes, levei-a ao cinema e a espectáculos, ofereci-lhe prendas e tive com ela longas conversas enquanto olhávamos para o luar.

Como disse no início, sempre houvera uma química entre nós os dois. Ela eventualmente também o percebeu. Tornámo-nos namorados.

Ambos tínhamos uma vida ocupada por isso não nos conseguíamos ver muitas vezes, pelo menos não tantas quanto desejaríamos. Mas sempre que tínhamos hipótese juntávamo-nos, passávamos a noite juntos, jantávamos e ríamos e no final da noite eu trazia-a para o meu apartamento onde fazíamos amor apaixonadamente.

Com o passar dos meses a relação foi-se consolidando, tornando-se mais íntima, e em mim começou a crescer a evidência: Pandora era a mulher da minha vida. Eu amava-a, adorava-a, só queria estar com ela, passava os dias a antecipar os meus encontros com ela, ela era tudo o que eu queria. E pela maneira como as coisas iam, estava certo que ela sentia o mesmo por mim.

Foi assim que ontem à tarde fui à joalharia e comprei um belo anel de noivado, para a pedir em casamento. Hoje passei o dia nervosíssimo, na antecipação de me declarar à minha amada.

Esperei por ela no sítio onde costumávamos encontrar-nos e o tempo parecia nunca mais passar. Trazia comigo o anel no bolso, uma rosa vermelha na mão e muita água-de-colónia no pescoço.

Por fim ela chegou.

Estava linda, linda de morrer.

O seu olhar deixou-me hipnotizado.

O seu andar deixou-me louco.

Os seus lábios.

Os seus cabelos.

Prostrei-me de joelhos ali mesmo, no chão, à sua frente, e tirando o anel do bolso pedi-lhe que se casasse comigo, pois o que eu mais queria neste mundo era viver junto dela, envelhecer junto dela, morrer com ela.

Ela, a paixão da minha vida.

O que se passou a seguir aconteceu muito rápido.

Ela virou-se para trás e com ar horrorizado gritou um nome que me soou familiar.

Levantei-me e percebi o que se passava.

Tratava-se do homem do casaco vermelho.

Ele aqui, outra vez. A arruinar o momento mais belo da minha vida.

Caminhava em passadas largas na nossa direcção, os dentes cerrados, um olhar tresloucado.

No passado, já o vira mais do que uma vez a falar com Pandora.

Não gostava da maneira como ele falava com ela, mas não me quisera intrometer.

Não sabia quem ele era, provavelmente um ex-namorado perseguidor.

Já tinha vindo ter comigo algumas vezes, a ameaçar-me, a dizer que já estava a passar das marcas.

Nunca fui um valentão e por isso nunca o enfrentei, mas não seria ele que me faria desistir da mulher que eu amava.

Agora, chegava um momento fatídico. O homem do casaco vermelho aproximava-se com um ar ameaçador.

Senti que Pandora estava assustada. Senti que tinha de a proteger.

Nunca fui um valentão, mas soube que naquele momento tinha de mostrar a minha fibra. Enchi-me de coragem, cerrei os punhos, entrepus-me entre ele e Pandora e preparei-me para confrontá-lo.

Estendi os braços, tentando fazê-lo parar, mas vindo não sei de onde, recebi um formidável soco no queixo, que me atirou instantaneamente ao chão, onde ainda recebi uma fenomenal carga de pontapés.

Depois, o homem puxou-me pelo colarinho e começou a arrastar-me pelo pavimento. Completamente zonzo das violentíssimas pancadas que tinha recebido não ofereci qualquer resistência.

Fui assim, de arrasto, parar a este beco onde jazo agora.

Quando chegou perto dos contentores do lixo, o homem do casaco vermelho pegou-me pelas abas da camisa e com uma força extraordinária levantou-me no ar.

Olhou-me nos olhos, sondando-me.

E eu soube que nunca poderia fazer nada contra ele.

Ergui as mãos, submisso.

Ele olhou para trás, para a entrada do beco, onde se via a rua deserta.

Olhou em volta e para cima, para as janelas dos prédios circundantes.

E então tirou do cinto uma grande faca aguçada, tapou-me a boca com uma mão e com a outra desferiu um golpe profundíssimo no meu estômago.

Os meus olhos arregalaram-se.

Pude ver a sua boca arreganhada, a fúria contida no seu olhar. Fitou-me durante alguns segundos e torceu a lâmina dentro das minhas entranhas antes de a puxar cá para fora, violentamente.

Com a mão que ainda me tapava a boca começou a empurrar-me para o lado e para baixo, fazendo-me cair no meio de um monte de sacos de lixo.

Neste momento já eu estava em choque, mas ainda me lembro de o ver retirar um pano branco do bolso, com o qual limpou a lâmina da faca e as mãos. Atirou o pano para os meus pés e cuspiu-me para cima com desdém.

Afastou-se com as mesmas passadas rápidas, o som dos seus tacões ecoando pelas paredes do beco.

Agora, moribundo, no limiar da inconsciência, lamento a tragédia da minha vida. Perdi a mulher que amava e nem uma só vez lhe beijei os lábios.

Era tudo o que queria agora. Um simples beijo da minha amada.

Mas ela sempre recusou beijar-me.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Fumo e Espelhos

Era o belo fim de tarde de um plácido dia de Outono quando ele estacou na soleira da porta da casa branca da sua infância e inspirou fundo. Ajeitou o colarinho e olhou de relance para os canteiros, sempre floridos e bem tratados, imutáveis desde que se lembrava, animados pela brisa fresca e suave que embalava o mundo. Mas não se perdeu nas recordações e levantou o punho, batendo três vezes na madeira da porta. Esboçou o seu melhor sorriso e pigarreou, olhou uma última vez para trás, para a rua deserta, de árvores despidas, e aguardou.

“Quem é?”, perguntou uma voz do outro lado da porta, uma voz familiar, trémula, mais velha que o próprio tempo, que o encheu de ternura.

“É o teu filho, minha mãe!”, respondeu ele sorridente, e ouviu a chave a rodar na fechadura com uma perceptível ansiedade e a voz da mãe, do outro lado, transbordante de alegria.

A porta escancarou-se e ela abraçou-o com força, beijou-o nas faces e falou das saudades que tinha, do tempo há que não o via, do frio que fazia na rua, vem para dentro meu filho, ainda te constipas, deixa-me ver-te, estás tão bonito e elegante.

“Olha trouxe-te isto…” disse ele e estendeu-lhe um grande ramo de rosas brancas, ai tão lindas, meu querido, és tão atencioso, espera, deixa-me pô-las num jarro, vem, entra aqui para a cozinha, decerto tens fome, vou-te fazer um lanchinho, que é feito de ti, que tens feito que nunca mais vieste visitar a tua pobre mãe, meu filho, meu anjo, é tão bom ter-te aqui, e mais uma vez abraçou-o cheia de carinho e a comoção trouxe-lhe lágrimas gordas ao canto dos olhos. Ele limpou-as com a ponta dos dedos e fitou o seu rosto ebúrneo, com o seu olhar lânguido e as rugas que se insinuavam nos cantos dos olhos e da boca, e achou-a linda.

“Minha querida mãe… Desculpa… Agora sou um homem ocupado, tenho tido muito trabalho e por isso não tenho tido muito tempo para ti, não se faz, estás aqui tão sozinha…”

“Oh meu filho não te preocupes comigo, conta-me a tua vida, o que fazes, quem és? A solidão não me dói, dói-me mais sentir que já nem conheço o meu próprio filho…”

“Eu sei mãe, eu sei. E é por isso que eu te quero compensar tudo isso, e tudo o que fizeste por mim toda a minha vida. E quero agradecer-te… Olha também te trouxe isto.”

E tirou de um saco que tinha trazido com ele uma caixinha refinada.

“É um chá muito especial importado da China. Sabes que eu não aprecio chá, mas disseram-me que este era uma maravilha. Aproveita e experimenta-o, agora que vamos lanchar”.

“Oh meu filho, és amoroso, obrigada por te teres lembrado…”

Lancharam os dois e ele contou-lhe dos seus negócios, de como se tinha tornado num empresário de sucesso, de como estava a ganhar bem e das viagens fantásticas que fazia regularmente, e dos sítios maravilhosos que já tinha visitado.

Falaram pela noite fora, muito para lá da hora de ir dormir da sua mãe. Eventualmente ele disse-lhe que tinha uma surpresa para ela e contou-lhe que lhe ia oferecer uma viagem a um daqueles sítios com praias de areia branca e coqueiros e água transparente, com tudo pago num hotel de luxo, e sim não te preocupes, eu quero mesmo oferecer-te, tenho dinheiro para tal.

“Mas não é tudo o que tenho para te contar!”, acrescentou. Os olhos da mãe abriram-se de curiosidade, como os de uma criança pequena.

“Mãe… Eu conheci uma rapariga.”

Falou-lhe de como ela era bonita e inteligente, de boas famílias, de como gostava dela e de como estava feliz. E contou-lhe que se iriam casar. Os olhos da sua mãe estavam marejados de lágrimas de alegria.

“Por isso prepara-te minha querida, daqui a uns poucos aninhos deves ser avó!”

E ela chorou de comoção sentido-se feliz como não se sentia há anos.

Fez-lhe ainda muitas perguntas mas eventualmente a sonolência venceu. Disse que se ia deitar. Ele levou-a à cama.

“Já não me posso em pé meu querido… Gostei muito de falar contigo. O teu quarto está todo arrumado e tens a cama feita como sempre… Passo as semanas na esperança que apareças cá!… Estou desejosa que chegue amanhã para contar todas as novidades às minhas amigas… Anda cá meu filho. Amo-te tanto.” – Beijou-o com ternura. – “Fizeste de mim uma mãe muito orgulhosa… Boa noite para ti.”

“Boa noite mãe.” - disse ele fazendo-lhe uma festa nos cabelos grisalhos. Desligou a luz e fechou suavemente a porta do quarto.

Não tinha sono, obviamente. Passeou-se por aquela casa cheia de recordações, fotografias da sua infância e adolescência, do tempo em que o seu pai ainda era vivo, momentos de outrora, instantes de felicidade para sempre aprisionados em molduras, imóveis, a acumular poeira.

Estacou por fim defronte à janela da sala, por onde entrava a luz prateada das estrelas. Estava uma noite fria e silenciosa. Ficou ali uns largos minutos a fitar o vazio até que achou que já passara tempo suficiente.

Voltou à porta do quarto da mãe e abriu-a lentamente. Acendeu a luz.

Ela não acordou.

Jazia de olhos fechados, um sorriso ainda a insinuar-se-lhe nos lábios, estática.

Invulgarmente estática.

Ele aproximou-se dela e pegou-lhe no pulso delicado e tentou ouvir-lhe a respiração.

Nada.

Suspirou.

O veneno do chá surtira efeito.

Retirou do bolso um chaveiro, e remexeu nas chaves até encontrar uma cinzenta, pequena.

Foi em passos lentos até à sala onde tinha deixado a sua pasta de executivo.

Sentou-se no sofá e usou a pequena chave para abrir a pasta. Ficou a olhar absortamente para o seu conteúdo.

“Fizeste de mim uma mãe muito orgulhosa” – pensou.

Era tudo o que ele queria ouvir.

Olhou para as rosas brancas que a mãe tinha posto num grande jarro azul.

Expirou longamente e enfiou na boca o cano do revólver que estava dentro da pasta.

Disparou sem hesitação.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Última Hora


Este texto estava a apanhar pó numa qualquer subpasta d'"Os meus documentos". É datado de Agosto de 2004, tinha eu dezassete tenros anos, e é um ensaio sobre as ultimas reflexões de um condenado à morte. Em retrospectiva diria que está um pouco óbvio de mais, hoje optaria por uma abordagem mais subtil. Por outro lado acho que o estilo de escrita está interessante, notando-se uma clara influência das leituras de C. Palahniuck.

A vingança é o ódio que nasce nas vítimas do ódio. Como o amor, o ódio é cego, e da mesma maneira que pelo amor se morre, pelo ódio se mata.

O meu nome é uma incógnita. Para ti, não sou mais do que um rosto anónimo que vês passar na rua. Tenho uma história para contar que é a história da minha vida. Não esperei vir a contá-la tão cedo. Pensei que a iria contar na minha velhice, sentado numa cadeira de balouço, ao pé do crepitar acolhedor de uma lareira acesa, com um neto de três anos ao colo, enquanto mordiscaria a ponta gasta de um cachimbo de madeira, aproveitando aqueles deliciosos momentos de fim de tarde, crepúsculo do dia, crepúsculo da minha vida...

Infelizmente, não vou poder gozar esses momentos, porque a minha história já acabou.

Estou sentado no chão sujo de uma cela apertada. Há um cheiro pestilento a pairar no ar... A náusea é uma constante. Já me habituei. Nunca me habituei foi a este silêncio gritante. Dizem-me que estou aqui há seis anos. Eu não sei, não refuto nem corroboro, pois há muito que perdi a noção do tempo.

O guarda disse-me que hoje tinha chegado a minha vez. Finalmente.

Não sei há quantas horas me disse isso. Sei que vai acontecer às seis da tarde, mas isso não tem grande relevância para mim... Podem faltar cinco minutos. Podem faltar duas horas... Pelos menos sei que é hoje. No interior da minha cela, sem janelas, luminosidade débil, ambiente decadente, não sei se é tarde, não sei se é manhã, não sei se é noite. O tecto goteja em cadência... As infiltrações duram há tanto tempo que já se denotam pequenas estalactites de calcário e o chão está carcomido por uma espécie de bolor verde.

O meu nome é uma incógnita e hoje vou morrer.

Durante muito tempo temi a chegada deste dia. Tinha medo da treva, do negrume, do silêncio, da solidão. Da morte. Eu não queria morrer. Eu queria uma oportunidade... Ninguém ma deu. Agora já estou morto. O meu corpo sobrevive, a minha mente divaga, mas o meu espírito abandonou-me há muito.

Não consigo deixar de sentir um certo nervosismo. A minha garganta é cortiça, o meu estômago é ácido. Dentro de pouco, muito pouco, uma agulha vai-me penetrar a pele... Vou sentir um ardor corromper-me as veias, uma tontura, uma derradeira náusea e depois acabou-se. O oblívio. Perder-me-ei no esquecimento.

Será justo? Dantes interrogava-me sobre a justiça. Será que o mereci? Isso não me importa... Na realidade, é um alívio saber que este momento chegou. De qualquer forma, a pergunta nunca teve uma lógica inerente. Que interessa se mereci? O que é facto é que não vai resolver nada. A minha morte não vai acalmar as almas dos que trucidei. A minha morte não vai salvar ninguém. Não vai ajudar ninguém.

Às vezes pergunto-me se estou arrependido daquilo que fiz. Penso para mim próprio: se me fossem dadas as mesmas condições, voltaria a optar da mesma forma? Não sei. Haveria alguma forma melhor? Nenhuma alternativa me deixaria bem comigo próprio. Quando o fiz pensei que iria encontrar paz. Mas não. Só encontrei desolação.

Uma injecção de cianeto de hidrogénio e depois a morte.

O guarda disse que o padre viria dar-me a extrema unção. Aproveitei a ocasião para lhe dizer que se Deus existe é um merdas. Disse que o padre faria melhor em continuar os seus sagrados deveres de violação de criancinhas inocentes... Eu deixei de acreditar no Supremo Arquitecto há muito tempo. Se aquilo que está escrito tem uma ponta de verdade, então eu estou condenado ao inferno até ao fim dos meus dias. Nem que viesse o Santíssimo Papa perdoar-me todos os pecados eu me safaria.

Não tenho grandes informações sobre o que se passa no exterior, mas sei que as pessoas me odeiam. Para elas sou um assassino em série, um psicopata animalesco que devia ter ido parar à cadeira eléctrica.

Não vejo o céu há tanto tempo que não me consigo lembrar da sua cor.

Para o mundo eu sou a personificação do mal. Sou um doente intratável. Sou maléfico por natureza.

O meu aspecto não ajuda muito desde que fui espancado pelo grupo dominante desta jaula de gorilas. Deixaram-me a cara totalmente desfigurada. Levei cento e dezassete pontos e as hemorragias demoraram dias a estancar. Actualmente, se olhares para mim, não saberás distinguir qual dos inchaços da minha cara é o meu nariz.

Até os outros prisioneiros me odeiam. É por isso que estou na solitária há tanto tempo. Os guardas não se importaram muito com aquilo que os outros me faziam até terem de me isolar com medo que me matassem.

Os guardas não gostam que os prisioneiros morram nos seus domínios. Traz-lhes problemas.

Quando entrei na cela em que estou, nunca imaginei que iria passar tanto tempo aqui dentro. Não fui autorizado a assistir ao meu próprio julgamento, porque na audiência preliminar insultei o juiz. Não sei qual foi o problema deles. Ele era realmente um javali nojento... Bem, claro que não devia ter chamado a mãe dele à conversa, mas uma pessoa não controla todos os seus impulsos, não é?

Fui expulso por desrespeito ao tribunal.

O meu processo arrastou-se durante anos e anos. Os meus pais são ricos, ou pelo menos eram, antes disto tudo ter acontecido, e puderam pagar os melhores advogados na minha defesa.

A culpa não foi dos cães dos advogados. Eu condenei-me à morte. A sentença foi ditada há cerca de dois anos, e hoje chegou o grande dia.

Gostava de saber que dia é hoje, já que é provavelmente o dia mais importante da minha vida. Também gostava de saber ao certo qual é a minha idade, que calculo em cerca de vinte e quatro anos.

Quando me olho ao espelho não me reconheço. Transformei-me num destroço esfarrapado da pessoa que uma vez fui.

Não consigo deixar de pensar na minha mãe e na forma como a desiludi. Os meus fantasmas perseguem-me e trucidam-me, recordando-me a todo o momento o amargo destino que tracei para mim próprio.

Os guardas não se importam com nada. São abutres. Uma vez, no balneário, dois gorilas seguraram-me e o chefe do bando corrompeu todo o respeito que eu tinha por mim, num momento que pareceu uma eternidade, em que violou o meu corpo, a minha mente, destruiu a minha dignidade, reduziu-me a esterco consciente da sua existência, humilhou-me tão profundamente que não consegui enfrentar a minha própria imagem durante muito tempo.

Este mundo é podridão. Quando não o conheces, parece um lugar maravilhoso, mas quanto maior se vai tornando a tua consciência sobre os seus limites, maior se torna o teu nojo inerente a tudo o que existe. Ou talvez não. Talvez este mundo seja mesmo o lugar mágico e encantado com o qual sonhei em criança. Talvez tenham sido apenas as minhas acções e decisões que me deram esta percepção da realidade.

De qualquer forma, há muito que a minha percepção deixou de ter qualquer interesse. A minha mente foi tão dilacerada que tudo o que me circunda se tornou completamente surreal.

Tenho consciência disto porque acredito em lógica e num mundo lógico, coisa que o meu deixou de ser por completo.

Um injecção letal, com uma agulha esterilizada. Deram um último cigarro a um homem que ia ser enforcado. Ele respondeu: “Não obrigado. O tabaco faz mal à saúde”.

Dormência

Ou "Delírio". Ou "Demência". Ou "Psicotrópicos".

Dex olhou para baixo e a vertigem fê-lo vacilar. Um relâmpago iluminou o céu nocturno, ao longe, e o ribombar do trovão chegou pouco depois, abafado pelo estrépito contínuo da chuva torrencial. Olhou para baixo e viu o vazio a abrir-se diante dele, o nada a chamá-lo para a consolação do infinito. E lá ao fundo, muito em baixo, apenas um prado de luzes cintilantes, bruxuleando de forma surreal.

Abriu os braços e deu mais um passo em direcção à berma. Outro relâmpago estalou sem aviso, muito mais perto que o anterior e o estrondo fez com que desse um salto que quase o atirou para o oblívio. Mas recompôs-se e riu alto, loucamente, despropositadamente. Riu-se e gritou e desafiou a tempestade a lavá-lo daquela dormência que o assolava, que estava impregnada na sua vida e na de toda a gente. E quando o vento lhe respondeu com brutalidade, chicoteando-o sem piedade e vergando perigosamente a estrutura de metal onde ele estava apoiado, Dex quase vomitou as tripas, mas riu-se perdidamente, extasiado com a evidência de estar vivo.

Ergueu o olhar para abarcar a cidade que o rodeava a perder de vista, as formas cinzentas dos edifícios esbatendo-se contra o fundo negro da noite e as luzes, centenas, milhares de luzes, cintilando a seus pés e até ao horizonte distante.

Na sua indiferença e eterna frieza, a metrópole era lavada de uma sujidade inextinguível, purificada pelas vergastadas da chuva implacável e assim animada duma beleza intangível, odorífera, que o envolvia numa embriaguez eufórica, da qual não se queria libertar. Um terceiro relâmpago rasgou o céu e as fachadas iluminaram-se de cores de prata, os prédios escarpados projectando sombras negras nas ruas e nos becos escondidos. As gotas reluzentes da chuva pareceram parar no ar durante um instante dilatado em que o clarão iluminou tudo e Dex susteve a respiração, tentando congelar aquele momento na eternidade. Mas então o clarão desapareceu e os alicerces do mundo tremeram perante a formidável explosão sonora da trovoada. Dex não conseguiu suportar a ideia de deixar escapar a magia daquela tempestade e sentiu uma urgência enorme de se juntar a ela. Sem pensar, flectiu as pernas e atirou-se de cabeça para o abismo, gritando de alegria.

Do Outro Lado do Espelho

Bem-vindos ao meu pesadelo. O crepúsculo alonga as sombras até ao infinito, onde os meus sonhos vivem. O ar está tão pesado e tão denso que me sinto encurvar sob o seu peso inexpugnável. A bruma envolve tudo numa atmosfera inefável, etérea, irreal. As árvores morrem, desvanecem-se no negrume, a luz moribunda desfaz-se ao penetrar nas suas copas folhadas, parte-se em mil feixes, fragmenta-se inextrincavelmente como a imagem que vejo quando mergulho nos olhos desse que me encara do outro lado do espelho. Olhos, diz-se, são o espelho da alma. O meu espelho está irremediavelmente partido.

Se o pudesses ver, dirias que caiu ao chão, por acidente, talvez, e que se partiu em mil bocados, que se espalharam pelo chão, fragmentos cintilantes de um todo complexo e nunca completamente compreendido, agora perdido. Dir-se-ia que alguém o tentou salvar, então, recolhendo cada pedacinho, pois a verdade deve ser dita, não há um pedaço que lhe falte, e, com a paciência de quem só lhe resta a morte, se pôs a colá-los, um a um, tentando inverter os insondáveis caminhos da entropia.

Mas a verdade é bem diferente. Ainda que se tenha realmente partido por descuido, tal não ocorreu dessa forma, num momento era uno e todo, noutro um monte de detritos. Não. Tudo começou com uma única racha, perto do bordo, desprezável e desprezível. Uma racha que cresceu e que se ramificou. E quando me apercebi da sua ameaça latente, já era demasiado tarde.

Percebi então que discretamente, silenciosamente, ela o tinha consumido até às entranhas, envenenado a sua essência até ao fulcro. Aquela racha era apenas a parte visível desse universo cacofónico e amorfo que se tinha instalado longe da minha vista, nas profundezas do meu ser. E agora, quando tudo desabava, à medida que os últimos elos que mantinham a coesão se desagregavam, atormentados por tortuosas correntes de caótica destruição, eu via então, enfim, estupidamente impotente, o espelho a fragmentar-se, as rachas a espalharem-se, a ramificarem-se, a rasgarem aquela superfície lúcida, que rangia, num esforço vão, que quebrava, com um tínido agudo e acutilante, que cedia face à pressão insuportável das forças que a corrompiam, lentamente, de uma forma agonizante, como um homem que se afoga, lutando pela sua vida.

E eu apenas podia olhar, enquanto o meu espelho se desfazia. Pensei que as rachas se continuariam a dividir infinitamente, qual fractal, eventualmente reduzindo-o a pó. Mas a sua demanda destruidora acabou por parar, e neste estado ele ficou, frágil, incrivelmente frágil, como que esperando qualquer pretexto, por mais pequeno que fosse, mesmo um sopro talvez, para concluir a sua ruína, para desabar no caos absoluto, finalmente.

Perplexo, fiquei a olhar longamente para as fendas que o rasgavam, que o dilaceravam, desfigurando a sua face límpida e pura, outrora lisa, agora profundamente irregular, cada um dos fragmentos ainda reflectindo o mundo, teimosamente, como se nada tivesse sucedido, como se pensassem que desprezando a inevitabilidade do que acontecera, poderiam diminuí-la ou mesmo apagá-la. Mas a verdade é que já não havia harmonia.

Cada pedaço do espelho apontava numa direcção diferente, reflectia uma parte diferente da realidade, como um exército dispersando atabalhoadamente, após a perda do seu general, cada um para seu lado, sem ordem nem rumo. Só me apercebi, no entanto, da verdadeira dimensão deste facto, quando, deixando de olhar para os pormenores de cada fragmento, me afastei e olhei para a imagem que se formava do lado de lá.

O que vi deixou-me mudo.

A própria realidade partia-se ao entrar no espelho e, para sempre aprisionada nos seus labirintos, consumia-se e corroía-se. E quando fitei o rosto que se escondia para lá da teia quebradiça do vidro polido, apenas pude conter um grito de pavor sufocante, assombrado por uma visão que me viria a atormentar para o resto da eternidade, daquilo que existe dentro de mim, daquilo que apodrece nas vísceras da minha mente.

Uma cara cadavérica, diabolicamente distorcida, profundamente truncada, como se tivesse sido talhada com um cinzel. E bem no fundo das suas órbitas encovadas, um par de olhos cruéis espreitavam, negros e vazios, fitando-me fixamente, tenebrosamente. Quis fugir. Quis correr. Quis fechar os olhos e acreditar que se voltasse a abri-los acordaria e tudo estaria bem outra vez.

Mas não conseguia, estava paralisado, não conseguia mexer-me, não conseguia desviar o olhar daqueles olhos terríveis que me fulminavam, que me penetravam a alma, sondando violentamente as profundezas do meu espírito, queimando tudo na sua passagem. E o som, o som desesperado dos gritos aterrorizados ecoando dentro do meu crânio, como se aquela sonda cortante trouxesse à superfície todas as más recordações que jaziam nos recônditos do meu inconsciente.

Em breve, senti-me desfalecer. O negrume apoderava-se de tudo à minha volta enquanto o meu corpo era arrastado por uma força inexpugnável, em direcção àqueles olhos horripilantes. Quis resistir, quis lutar, mas era impossível, as vozes dentro da minha cabeça não paravam, gritavam cada vez mais e mais alto, num terror indescritível, alucinante. Os olhos do outro lado do espelho pareceram inflar, absorvendo toda a realidade, enquanto eu era arrastado por uma força esmagadora na sua direcção, como se o vácuo daquele olhar me estivesse a puxar para o seu interior, empurrando-me contra o espelho estilhaçado.

Por fim, no limiar da inconsciência o meu corpo cedeu. Como que acelerado pela gravidade esmaguei-me brutalmente contra o vidro que colapsou quase instantaneamente, explodindo em milhares de estrelas de cristal cintilante. Perfurei a superfície e rodopiando lentamente caí no negrume infinito. Antes de perder os sentidos, apercebi-me que tinha entrado noutro mundo, noutra dimensão, noutra realidade. Eu estava do outro lado do espelho. E com uma lucidez incrível, inexplicável, sabia-o, sem saber como: não havia caminho de volta.

Ocaso

Nas malhas insondáveis da memória vive um monstro sem rosto e sem nome.

Uma estação de comboio.

É velha e feia e suja e tem as lágrimas e a tristeza das partidas cravadas nas lajes gastas do chão. O carril perde-se na planura inóspita e ao fundo, ainda longe, surge a silhueta grosseira de uma locomotiva.

Silêncio.

O vento arrasta as folhas pelo cais deserto e alvoroça a erva num prado distante. O céu está escuro. O relógio da estação marca cinco horas e nove minutos no crepúsculo fustigante de Inverno.

Os carris guincham, doridos, à medida que a máquina se aproxima com um estrépito rápido, rítmico, monótono, fatigante. O comboio abranda com um assobio estridente e detém-se, suspirando de cansaço, e de novo, o silêncio.

Um homem alto com um chapéu preto.

Desce os degraus para fora da carruagem e pousando uma grande mala de cabedal no cais, perde o olhar na solidão da paisagem, num momento que se alonga pelo horizonte que a vista abarca, até ser interrompido pelo apelo angustiado do assobio do comboio, que retoma custosamente a marcha com um martelar metálico e indelicado que fere a quietude da planície mas que rapidamente se dispersa na lonjura.

E de novo um silêncio pacífico, melancólico, banhado por uma brisa suave, quase inaudível, que transporta a apatia do mundo. O homem tira o chapéu preto da cabeça e é esmagado por uma tristeza que lhe surge nas entranhas, que o transborda e que se escoa por entre as lajes cinzentas do cais deserto.