Há uns meses fui expulso da minha casa em Lisboa por ter sido acusado de a assaltar. Este texto sintetiza o que retirei dessa experiência.
Ah esta sensação de infâmia.... Esta doce sensação de infâmia....
Como fiquei viciado nela!....
Os olhares assustados dos outros, dos rectos, mirando-me sob a protecção dos ombros da polícia, simultaneamente curiosos e receosos, então foi ele?, perguntam, em surdina, deixa-me vê-lo, sussurram, e és uma atracção bizarra e são os teus quinze minutos de fama.
Esta deliciosa experiência de me sentir uma ameaça, mesmo quando a única coisa que estou a fazer é apanhar seca de braços cruzados.... Esta exaltação de me sentir perigoso e temido...
Injuriado, mas apenas à distância e protegidos, porque lhes sinto um respeito que só tem um nome: é medo, eles têm medo. Não confiam em mim, vigiam-me cada gesto, estão nervosos com a minha presença espectral, a ideia de ficarem sozinhos comigo fá-los desfalecer.
Um criminoso, nesta casa de bem.
Como o pudemos deixar entrar aqui?
Como pude dormir no quarto ao lado do dele por meses a fio?
Quem diria, viver com um deliquente debaixo do mesmo tecto, mas não, não mais, nem mais uma noite volto a dormir assim!
E assim nos transfiguramos por completo aos olhos destas gentes, ontem inofensivos, hoje monstros diabólicos e sem escrúpulos.
Marginais.
Transfiguramo-nos sem nenhuma razão plausível, racional, sem nenhum facto que o justifique, apenas a mente delirante e histérica dos que foram lesados, que precisam de um alvo, um bode expiatório e sou atacado de acusações.
E grita-me ela que tem toda a legitimidade para desconfiar de mim.
Vez após vez.
E começa a usar cada hesitação no meu discurso, cada pormenor do meu dia de que eu não me lembro bem, cada inflexão na minha voz, para inflacionar a sua suspeita, ao ponto da sua convicção ser tal que eu já começava a achar que só podia mesmo ter sido eu!
Então e o teu colega que esteve aqui hoje de manhã??? Foi ele, tenho a certeza!
O colega em causa é aluno de mestrado em matemática, como tal um completo alienado da realidade. Para ele roubar não tem qualquer desafio pelo simples facto de daí não se poderem retirar tautologias.
Vais falar com o teu colega e eu quero os portáteis aqui, não quero saber de mais nada!
Chegam os polícias e ela acusa-me, um dos guardas leva-me para a cozinha, identifica-me e faz-me esperar uma hora, enquanto os outros dois interrogam a histérica, cuja voz já não posso ouvir a acusar-me, a injuriar-me, difamar-me e caluniar-me, até que a hora passa, aí vêm eles, ouvir a minha versão.
Ou não?
Chega o responsável, o rosto carregado, a enfiar uma luva de cabedal na mão.
Onde é que é o teu quarto, pergunta-me ríspido, e eu indico-o como bom cidadão.
Sentam-me lá, os dois olhando-me de cima, diz-me um, a voz espinhosa, Vou começar já por te dizer que não gosto da tua cara, tens cara de mentiroso, mas aqui já toda a gente te topou... por isso o melhor que tens a fazer é dizer-nos onde é que estão os portáteis porque se não isto vai ser bem pior!
E eu rio-me, meio embasbacado, o que é isto? de onde é que isto veio? Isto são polícias, veêm isto todos os dias, será possível que a outra histérica lhes tenha dado a volta só por me acusar esganiçadamente, sem qualquer prova?
Estás-te a rir, olha que eu não estou a achar piada nenhuma, isto não é uma brincadeira, diz-nos já onde é que estão os portáteis antes que a gente te parta a boca toda! E não vale a pena continuares a tentar encobrir o teu colega, ele já confessou tudo...
E eu fico parvo. Até a história do colega eles compraram. É então assim que funciona a justiça, o primeiro a contar a história é que diz a verdade, ah quem me mandou ser cavalheiro...
Eles nem sequer sabem quem o meu colega é. Nem ainda lhes tinha dado o contacto dele. Mas ele já confessou... Isto as tecnologias modernas são outra coisa.
Continuam a pressionar-me, a acusar-me, a forçar-me a confessar, não vale a penas estares com essas merdas, todos os dias mando para a choça gajos como tu, foste apanhado agora vê se não complicas ainda mais a tua situação.
Já me começo a exaltar mas depois acalmo-me e lembro-me, isto não faz sentido, não vou ceder a este jogo, vou mas é contar aquilo que eu sei.
Saí de casa de manhã, vi a mãe da outra a pôr coisas no frigorífico, cumprimentei-a, fui ao ginásio, voltei passado uma hora, a porta estava entreaberta mas não liguei, pensei que a outra tivesse vindo a casa e que a tivesse deixado assim só para ir buscar qualquer coisa.
Não liguei, não me importei, fui tomar banho, vesti-me, voltei a sair.
Passado umas horas a outra ligou-me, começou-me a contar uma história estranha e eu, na minha boa fé, lembrei-me de ter encontrado a porta aberta...
Imediatamente o tom dela se alterou, agressivo, perguntou por onde é que eu tinha andado naquele dia e eu que já tivera um dia preenchido e estava cansado não me lembrava bem.
Como é possível não te lembrares? Não sabes a que horas acordaste? Não sabes o que fizeste hoje? Olha lá e esteve algum colega teu cá em casa hoje?
Hmmm... não que me lembre não....
Tens a certeza?
Pá acho que não, mas a verdade é que o hoje e o ontem são uma mancha difusa na minha cabeça e eu não me lembrava que tinha visto a mãe dela, que por sua vez tinha visto o meu colega, que tinha só passado lá por casa 5 minutos antes de eu sair, que por sua vez tinha contado a ela que nos tinha visto.
As suas suspeições voam em catadupa, eu digo-lhe para se acalmar, que vou lá ter a casa e vamos tentar esclarecer a situação e ela insiste que tudo o que eu faço e digo e me lembro é muito suspeito e tenta fazer-me contradizer e eu fico nervoso e contradigo-me e ela reforça uma certeza insane e eu vejo-me preso num beco que não sei como fui lá parar....
O seu principal argumento para me incriminar era o facto de eu não ter ficado completamente histérico como ela com o que acontecera.
Acabo de contar isto à polícia e eles gritam-me
MENTIROSO!!!
E o outro vira-se para o primeiro, não, isto não há dúvida, ele está a mentir...
E eu grito-lhes que me metam num polígrafo e eles dizem-me que amanhã passam por aqui de novo e é bom que os portáteis estejam lá...
Isso vai ser um bocado difícil, duvido que quem os roubou tenha intenção de devolver...
Estás a mentir, pensas que nos enganas, merdas como tu já eu estou farto de lidar, vê se pensas bem no que tás a fazer que ainda vais foder a tua vida toda!
E eu rio-me de novo e pergunto qual é o objectivo de toda aquela violência.
Violência? achas que estamos a ser violentos? Alguém te tocou por acaso? Tu não nos queiras ver ser violentos....
Violência verbal também é violência....
E eles riem-se e dizem que me deviam era dar um enxerto ali mesmo.
Pronto, digo eu, não vou continuar neste jogo... A princípio não estava à espera disto, mas vejo que só estão a fazer o vosso trabalho... Estão a ver se eu quebro, se confesso, se me assustam, mas eu não tenho nada para confessar e não vou continuar a exaltar-me com as vossas provocações....
Tu andas é a ver muitos filmes, já foste avisado, amanhã quero os portáteis aqui!
Amanhã vou para o Algarve, digo eu, já tinha isso combinado....
Vais para o Algarve???? Tu já não vais a lado nenhum meu amigo, eu vou agora passar-te uma ordem de restrição e não podes sair de Lisboa até seres interrogado!!!! E virando-se para o outro, olha-me este... tá a ficar nervoso agora quer fugir... Coitado, estes dois já não vão a lado nenhum, nós já temos o número de série, tão tramados, não vale a pena...
Estou muito curioso por saber o que é isso do número de série... Um número que determina a culpa... Há muita coisa que não conheço neste mundo...
Finalmente deixam-me ir e junto-me à maralha exaltada que está no hall, que se cala com a minha chegada, os olhares acusadores, pesados, a outra inquilina chorosa, a irmã da senhoria começa a atacar-me, o cunhado de não sei quem da senhoria a dizer para a irmã da senhoria se calar, a senhoria a dizer-me que o cunhado de não sei quem é advogado, a outra inquilina chorando...
Eu digo que lamento a situação e a irmã da senhoria chama-me ladrão e mentiroso e neste oróburus sem saída fico sem saber o que fazer, ninguém quer esclarecer a situação, ninguém quer analisar os factos, ninguém quer saber o que acho, o que eu vi e o que eu sei, eles já sabem tudo o que precisam de saber e até já sabem o que vão fazer comigo.
Você hoje já não dorme nesta casa.
A outra inquilina tem medo de mim, do ladrão.
Depois devolvemos a renda e a caução, não se preocupe.
Mas hoje você já não dorme cá. E vamos mudar a fechadura.
E eu sinto-me cair numa espiral surreal, rebolar numa bola de neve sem qualquer sentido.
O pasmo é tanto que nem contesto, já não quero perceber, já não quero saber.
Estou aqui há quatro horas a ser espremido e picado quando sou tão vítima como qualquer um de vós, és, és uma grande vítima, foste tu que ficaste sem um portátil de 250 contos!, diz a irmã da senhoria, cala-te!, diz-lhe o advogado, agora sabe-se lá onde é que os escondeu!, cala-te!, gritam a senhoria e o advogado em coro, a outra inquilina chora.
Estou farto. Na altura do primeiro telefonema eu estava a preparar-me para ir jantar. Entretanto passaram-se 4 horas.
Tenho para onde ir, mas passa da meia-noite e fui posto na rua... Podia perfeitamente não ter sítio para ficar...
E digo: Então mas onde é que esperam que eu vá? Expulsam-me da minha casa assim?....
Sua casa? - Diz sarcástica a irmã da senhoria....
Olhe, porque é que não pede albergue ao seu colega que trouxe cá indevidamente hoje de manhã? - diz a senhoria com um sorriso vingativo nos lábios.
Ao trazer estranhos cá comprometeu a segurança da casa, somos forçados a agir assim.... - diz o advogado.
A outra inquilina chora.
Eu vou ensacar umas quantas coisas, entrego as chaves e vou-me embora.
Quero lá saber.
Vou para a minha casa velha, onde fico nos seguintes 4 ou 5 dias.
A casa das larvas, sim.
Um fora-da-lei no exílio.
O rosto vincado pela dureza da vida.
A alma negra de todo o mal que infligiu.
Um coração de pedra.
O olhar sem brilho dos bandidos.
Um foragido.
Perigoso e temido.
Implacável e sem escrúpulos.
Irredutível...
Ah merda....
Esqueci-me de trazer roupa interior....
Sobre este blog
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segunda-feira, 9 de junho de 2008
Fora-da-Lei
Postado por Sonat às 00:57 4 comentários
Marcadores: Histórias Verídicas
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Quando a realidade é mais estranha do que a ficção..
Não obstante, passados 4 meses vejo os pormenores a começarem a dissolver-se na memória e como não quero de modo algum esquecer esta história, vou deixá-la aqui escrita, para meu próprio proveito, para que a possa relembrar para sempre. Estou certo que o impacto no leitor nunca será comparável com a experiência que tive, mas tentarei ser tão vívido quanto conseguir.
Em janeiro deste ano de 2008, comecei a procurar um novo poiso para morar cá em Lisboa.
Digamos que estava farto que a minha casa-de-banho tivesse mais pintelhos no chão do que eu no corpo todo.
Procurei por quartos para alugar na net e encontrei uma verdadeira pechincha: um quarto a 100 euros por mês, perto da minha escola, com água, luz, gás e net incluídas.
Bem, não fui ingénuo ao ponto de pensar que ia ser um sítio fabuloso, mas nunca, nunca me poderia ter preparado para aquilo que viria a vivenciar.
Telefonema:
Eu: Boa tarde, estou a telefonar por causa do quarto a 100 euros em arroios?
Senhorio: Ah sim sim, pois deve ter visto o anúncio....
Eu: pois... Ainda está disponível? Vou partilhar a casa consigo certo?
Senhorio: sim, sim, é que eu estou reformado e agora estou lá sozinho desde que o outro rapaz se foi embora, a casa é pequena mas não tem de se preocupar que eu passo a maior parte do tempo no meu escritório, isto eu também sou uma pessoa que aprecia a privacidade, mas quer dizer desde que cada um saiba respeitar o espaço do outro não haverá problema.
Eu: claro, claro, com certeza... Quando é que lhe dá jeito que o vá visitar?
Senhorio: Sim, sim, realmente, olhe, aquilo são umas águas furtadas, num quinto andar e devo avisá-lo que é um apartamento modesto, não é, eu ainda estive na dúvida se havia de alugar ou não mas como agora estou lá sozinho dava-me jeito, porque sabe, eu sou de [terriola perdida no espaço e no tempo] e gosto de lá ir passar os fins-de-semana por isso dava-me jeito...
Eu: pois... Então quando nos podemos encontrar?
Senhorio: Sim, sim... acho que vai gostar muito do sítio, sabe, é que eu aqui tenho um terraço com uma vista lindíssima sobre Lisboa, uma coisa... impagável!
Eu: Sim? parece magnífico... então e quando é que posso ir conhecer o sítio?
Senhorio: Pois, eu amanhã tenho de ver, de manhã não me dá muito jeito porque tenho de fazer a barba e depois à tarde tenho de [fazer não sei o quê, não sei aonde com não sei quem], mas quer dizer, portanto, digamos [divagação ininteligível]. Pode ser na [data, hora e local]?
Eu: por mim está óptimo, então até lá, muito obrigado, com licença.
Marcámos num café lá perto. Partilhar casa com um idoso não era uma ideia que me agradasse muito, mas por aquele preço...
Sentado na esplanada à hora marcada, 15:30, olhava incessantemente em volta à procura de um olhar que me procurasse, curioso com qual seria o aspecto do meu interlocutor.
Um quarto de hora depois ainda estava nisto e por isso telefonei-lhe. Disse-me que estava um pouco atrasado e que tinha acabado de sair do banho, e que já vinha.
Esperei.
Sempre que via um velhote olhava para ele tentando entrever reconhecimento. Passado meia hora apareceu um senhor, à entrada do café, um ligeiro sorriso nos lábios, a apontar para mim.
O choque foi imediato. Não era nada do que tinha imaginado. Era muito alto e magro, a pele de um branco-amarelado meio esquisito, um pescoço muito comprido e esguio e mãos enormes, vestido em tons de beije com uma camisa muito fina aos quadrados. Era careca no topo da cabeça mas à volta o cabelo era abundante e liso, de um amarelo muito esbatido, chegando quase aos ombros. Usava uns óculos redondos de armações douradas com lentes que lhe ampliavam imenso os olhos e o sorriso revelava uma dentadura muito amarelecida. Fazia-me lembrar algo como o cruzamento entre um gafanhoto e uma avestruz.
Apresentou-se, tinha um nome esquisito de que já não me lembro [sim já sei, olha quem fala] e convidou-me a entrar no estabelecimento.
Pediu um café e fez-me algumas perguntas sobre mim, após as quais iniciou um extenso monólogo em que me contou o suficiente para se escrever uma biografia bastante detalhada.
Eu apenas ia anuindo, continuamente, meio embasbacado, enquanto ele me contava histórias sobre a PIDE e ter estado preso em África, sobre ser jornalista e sobre as reportagens que fez para vários jornais.
O seu discurso transmitia a noção de ser uma pessoa influente e social, o que contrastava por completo com o aspecto andrajoso que apresentava.
A certa altura perguntou-me se eu estava mal disposto.
Eu: Não, não estou óptimo!
Senhorio: É que parece que está com uma cara aborrecida...
Eu: Não, não, continue, por favor...
Senhorio: É que isto é para nos conhecermos percebe, quer dizer, acho que quando se partilha uma casa com uma pessoa devemos conhecê-la minimamente...
Eu: Com certeza, com certeza...
O monólogo prolongou-se. Contou exaltado histórias das semanas recentes e acontecimentos que o revoltavam relacionados com a publicação de uma notícia alegadamente difamadora sobre um ex-presidiário que era amigo dele e que tinha sido preso por assassínio 20 anos antes. As histórias que contava talvez até chegassem a ser interessantes, não fosse o facto de ele não providenciar adequadamente o contexto necessário, tornando o discurso extremamente desconexo.
Aborrecido de morte, tentava dar a entender que tinha alguma pressa e que gostaria de visitar a casa. Quando finalmente saímos do café o sol já se estava a pôr.
Durante a caminhada continuou a falar calorosamente, dando ênfase ao terraço "impagável" que possuía.
O primeiro prenúncio revelou-se quando passámos por uns contentores do lixo, ao lado dos quais estava uma planta de plástico muito velha dentro de um balde.
Senhorio: Oláaaa.... deixa lá ver o que é isto... É bonita por acaso... Mais logo se calhar venho buscá-la.
Eu: ....
Passados uns 100 metros:
Senhorio: Ah estamos quase a chegar... é já ali ao virar da esquina... Está a ver essa porta? - apontou para o outro lado da estrada - lembra-se aí há uns anos que um rapaz do Técnico foi esfaqueado até à morte?... Pois! Foi ali mesmo, no átrio daquele prédio. Cá para mim aquilo era história com drogas, ele devia andar metido nuns negócios quaisquer que estas histórias não acontecem por acaso...
Eu: ...
Aproveitou a deixa para voltar a falar sobre a sua carreira no jornalismo. Levou-me até à porta de um edifício que nem tinha mau aspecto e começamos a subir as escadas rumo ao quinto andar (não havia elevador).
Ao lá chegarmos, em vez de uma porta normal deparo-me com um sólido portão de ferro avançado em relação ao alpendre.
Senhorio: Isto aqui foi porque às vezes vêm aí uns drogados para as escadas injectar-se e então houve uma vez que me arrombaram a porta de casa. E eu pensei, então vou-me agora pôr a mudar a fechadura, para eles me arrombarem a porta de novo? Nãaa.... mais vale gastar mais um pouco e ficar com uma porta mais segura, não é assim?
Foi aqui que pela primeira vez arqueei as sobrancelhas. Podia ver, de facto, através das grades do portão, que do outro lado estava uma porta de madeira, encostada, seriamente amolgada e com a fechadura desfeita.
Ele destrancou o portão e abriu-o, dando depois um encontrão na porta de madeira que estava extremamente emperrada devido às amolgadelas. Ela rangeu estridentemente, arranhando severamente o chão que já tinha uns sulcos profundíssimos.
Gostava de ter uma imagem que mostrasse o que estava para lá da porta, porque receber toda a informação de uma vez, como aconteceu comigo, teria um impacto muito mais forte do que uma descrição. Infelizmente, na altura não tive o discernimento de pensar em como aquilo me iria parecer hilariante quando olhado em retrospectiva, porque nesse momento já eu estava completamente aterrorizado com a possibilidade de ter vindo parar ao covil de um geriatra psicopata.
O ambiente do "apartamento" [sim, com aspas] era tão lúgrube que durante o resto do tempo que lá passei estive constantemente atento às mãos do homem com medo de levar com uma matracoada/machadada/gás pimenta nos cornos.
Para aumentar a minha paranóia, o velho, por simpatia, tinha-me convidado a entrar primeiro, e como tal estava entreposto entre mim e a porta da rua, a minha única saída para a liberdade.
Durante toda a minha estadia naquela casa tive a certeza que se me distraísse ou virasse as costas durante uns segundos iria acabar trancado numa despensa, solidamente amarrado e amordaçado, à mercê das mais bizarras taras homicidas do velho.
O espaço era terrivelmente pequeno, sem janelas, com uma iluminação mortiça e decadente, o tecto baixo completamente enegrecido por infindáveis inflitrações e nenhuma parede estava à vista devido às pilhas gigantescas de tralha que se amontoavam até ao tecto. Era tão exíguo que para me deslocar dentro do compartimento que fazia de hall de entrada, sala de estar e cozinha ao mesmo tempo tinha de passar de lado por um estreitíssimo corredor, rodeado por pilhas de jornais velhos e livros amarelecidos. Cheirava fortemente a pó e a bafio, respirando-se uma atmosfera insalúbre, contaminada.
Nunca, nunca vi tanta tralha junta na minha vida.
É que aquilo era só tralha e tralha e mais tralha, sufocando até à claustrofobia, pois mal dava para uma pessoa se mexer.
Tudo atravancado, a televisão à esquerda, pousada numa estante onde mal cabia, ficando precariamente equilibrada, parecendo que podia a qualquer momento cair para a frente, e a menos de um pé de distância um sofá de dois lugares, às flores, manchadíssimo, por cima do qual a parede estava repleta de fotografias antiquérrimas, condecorações e diplomas e máscaras de índios e sei lá que mais; do lado direito estava a cozinha que se reduzia a uma bancada com lava-loiças num dos cantos da sala, ao lado da qual estava um frigorífico e uma máquina de lavar roupa, sobre a qual estava pousado um fogão tipo camping-gaz. A própria bancada estava cheia de panelas e loiça, pois não havia grandes armários nem gavetas. Em frente, um minúsculo corredor que levava para a casa-de-banho, que foi a primeira divisão que me mostrou: O chão era de betão, o tecto de esferovite enegrecida e completamente carcomida por bolores, e as loiças coladas com grandes montões de silicone, bem, se já viram o Fight Club então imaginem a casa-de-banho da casa do Tyler Durden, mas mais pequena, mais suja, mais nojenta, com piores acabamentos e com um poliban em vez de banheira.
Fazia lembrar uma daquelas casa-de-banho que se montam nos estaleiros de obras para os trabalhadores utilizarem. A maneira prazenteira como ele se referiu a ela como sendo "um pouco modesta" fascinou-me profundamente.
Depois voltámos à sala, onde à esquerda da televisão estava uma porta. Abriu-a e deixou-me entrar. Seria ali o meu quarto. Era um quadrado mais uma vez sem janelas, logo à direita encontrava-se uma cama pequeníssima que ocupava mais de metade do compartimento, sendo o restante espaço atravancado por uma escrivaninha e um guarda-roupa ao qual só se podia abrir uma porta porque a outra tinha a escrivaninha na frente.
Senhorio:olhe esta cama é óptima, é novinha em folha, que o outro rapaz que antes estava aqui uma vez chegou a casa chateado, partiu a cama toda e a partir daí começou a dormir no chão.
Eu:...
Senhorio: Olhe, ainda está ali a assinatura dele - diz-me isto com um sorriso nos lábios.
De facto, na parede ao lado da cabeceira tinha sido escrito com letras garrafais "SVEN" com uma caneta preta de tinta permanente, o nome do anterior locatário.
Eu: ....
Saímos do quarto e mesmo ao lado da porta havia um buraco rectangular na parede, com não mais de um metro de altura, tapado com um cortinado. O velho agachou-se, afastou o cortinado e pediu-me para o seguir, rastejando.
Passei para o outro lado atrás dele e cheguei a um compartimento muito estreito mas comprido, com um tecto inclinado feito de chapa, tão baixo que tive de permanecer de cócoras. À direita estava uma cama pequena e maltrapilha - a cama do homem - e aos pés da cama um computador, a parte de cima do monitor a bater contra o tecto, e um pequeno banco. Só de olhar para aquele recanto conseguia imaginar o velho sentado ao computador, todo encolhido, a cabeça a tocar no tecto, entretidissimo com sabe-se lá o quê...
Senhorio: portanto aqui é onde eu passo a maior parte do meu tempo, por isso não tem de se preocupar que apesar da casa ser pequena eu estou quase sempre aqui e você pode estar à vontade no resto da casa. Mas agora tenho de lhe mostrar o meu terraço, que é a pérola desta casa... impagável!
Começou a rastejar para a esquerda e eu segui-o pelo corredor, ladeado de ambos os lados por caixas tapadas com mantas de onde se ouviam pequenos arrulhares e estalidos. O chão estava todo cagado e cheio de sementes e pevides.
Chegou a uma porta de metal, também ela com um metro de altura e abriu-a. Saímos para o exterior, para o terraço de que ele falava ternamente.
Era um quadrado com uns 2 metros de lado, no topo do prédio, tanto o chão como o parapeito de betão. Havia um fio preso entre a antena de televisão e a chaminé que o velho usava para estender a roupa. O terraço tinha só mais dois objectos: uma daquelas bicicletas de fitness, muito velha e enferrujada, na qual estavam penduradas meias e cuecas a secar; e uma poltrona que parecia tirada da sala de espera de um consultório, completamente encardida e cheia de nódoas.
Senhorio, com um sorriso largo nos lábios: É para aqui que eu venho quando está bom tempo, sento-me aqui nesta poltrona a apanhar sol e a apreciar esta vista... uma coisa... impagável! Dá para ver Lisboa inteira! às vezes até durmo aqui, nas noites mais quentes, no chão. Olhe, até dá para ver a sua universidade, olhe ali!... Se olhar por aquela janela da sua escola, é capaz de me ver aqui, a apanhar sol.
Tentei afastar da cabeça a imagem de um louva-a-deus amarelo esparramado em cuecas.
A vista era de facto abrangente, ainda que revelasse os arredores como prédios completamente em escombros, todos carcomidos, à espera de cair.
Ficou ali um bom bocado, sorridente, a apreciar aquele momento e eu não o quis interromper. Tive o cuidado irracional de não me chegar muito ao parapeito com medo que ele me empurasse.
Depois voltou a entrar pela portinhola de metal e eu segui-o de cócoras. Fechei a porta atrás de mim, aliviado pela visita ter chegado ao fim.
Rastejei atrás do homem e passados 3 passos ele estacou, em vez de continuar até à portinhola que dava de volta para a sala. Estávamos neste momento a passar pela zona do corredor que estava toda cagada e ladeada por caixas cobertas com mantas.
O homem virou-se de lado e levantou uma manta revelando um pequeno sofá que estava debaixo dela. Sentou-se nele, com um longo suspiro de satisfação.
O meu coração acelerou. Ao sentar-se, o velho bloqueava-me por completo a passagem.
E ali estava eu, de cócoras, encurralado, atrás de mim a porta que apenas me poderia levar para o terraço escarpado e à minha frente o velho, com um sorriso maquiavélico nos lábios, não mostrando a mínima intenção de se levantar.
E naquele momento eu soube que ele ia sacar de uma pistola e ameçando-me com ela iria aprisionar-me.
E naquele momento eu soube que ia morrer de uma morte agonizante e horrorosa.
E apercebi-me que não tinha dito a ninguém onde tinha ido.
Nunca me encontrariam.
Não havia qualquer esperança de salvação.
Eu ia morrer nas mãos do velho assassino e estava ali, de cócoras, paralisado.
A minha mãe sempre me tinha dito para não falar com desconhecidos.... E eu sempre lhe tinha dado ouvidos! Como é que me tinha podido deixar levar desta forma?
Nisto, o velho aponta para mim.
Estou completamente aterrorizado por isso demoro a perceber que na verdade ele não está a apontar para mim, mas sim para trás de mim.
Viro-me para trás, a medo, e vejo o cepo morto de uma árvore.
Não percebo o que aquilo significa, será que ele quer decapitar-me?
E então percebo, ele quer que eu use o cepo como um banco, para me sentar. Faço isso e fico a olhar para ele, constrangido.
E então ele diz-me: Sabe o que é?.. Como lhe tinha dito eu aos fins-de-semana gosto de ir para a minha terra... Mas como agora estou sem ninguém cá em casa não posso ir porque depois não fica cá ninguém para tomar conta dos meus pequenitos....
Pega na ponta de uma das mantas que está a tapar uma caixa e levanta-a, revelando uma gigantesca gaiola, onde se podem ver vários pássaros.
Senhorio: O Sven antes é que tratava disso, mas houve um fim-de-semana em que ele não esteve cá e em vez de me avisar não me disse nada! Uma coisa indecente! Foi uma sorte que ainda cheguei a tempo e não morreu nenhum! Não é minhas fofinhas? Oh minhas lindas, minhas fofinhas, dá beijinho felismina, dá beijinho!
Começou a levantar mais e mais mantas revelando uma enorme quantidade de gaiolas cheias de pássaros de todos os tamanhos e feitios.
Senhorio: o problema nem é tanto a comida, porque eles não morrem por 3 dias sem comer, o problema é a água, que eles sujam-na toda muito rapidamente.
Neste momento eu estava completamente embasbacado a olhar para o homem, que começou a reprovar o comportamento do antigo inquilino que deixara os pássaros à morte.
Aproveitou a deixa para me contar toda a história do Sven, mais uma vez de forma extremamente desconexa, dando-me a entender que ele era uma espécie de adolescente deliquente que tinha estado num reformatório e que ele tinha acolhido. Tinham-se chateado por causa dos pássaros e ele há 3 meses que não aparecia em casa, sendo que tinha deixado lá todos os seus pertences.
Ao fim de 3 meses o velho achou que era melhor procurar um novo locatário, porque senão nunca mais voltava à terra dele.
Eu estava boquiaberto e anestesiado. De repente a completa surrealidade de toda a situação afundava-se em mim: o velho, a casa, a história do anterior inquilino que podia aparecer a qualquer momento a reclamar o quarto, e o ar reprovador com que o velho falava sobre ele por não ter alimentado os pássaros.
Mas se pensam que acabou aqui desenganem-se.
Nas duas horas seguintes o velho entreteve-se a apanhar um a um todas as dezenas de pássaros que tinha espalhados pelas várias gaiolas, tirando-os para fora e apresentando-me a cada um deles, fazendo referência aos traços mais marcantes da respectiva personalidade enquanto os beijava, afagava e chamava nomes meigos.
Eu permaneci todo este tempo num estado completamente atónito.
Ao mesmo tempo que passava pela experiência mais entediante da minha vida, apercebia-me que nunca na minha vida poderia ter conseguido imaginar uma coisa tão bizarra e descabida como aquilo que me estava a acontecer e apercebia-me da solidão do velho, de quem chegara a ter medo, mas pelo qual agora nutria uma estranha piedade...
Quando saí de lá doía-me o maxilar de ter ficado tanto tempo de boca aberta.
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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
A Contraprova
Tenho porém de admitir que os resultados não tendem a ser duradouros.
Dois dias depois...
Postado por Sonat às 17:00 4 comentários
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sábado, 12 de janeiro de 2008
Reportagem Fotográfica
Muitas foram as palavras que escrevi no post "O Berço da Vida" para descrever a casa onde habito, mas uma imagem vale mil palavras e por isso hoje optei por tirar umas fotos à minha cozinha e marquise para que aqueles que não as conhecem possam ter uma melhor noção.
Este é o estado normal destas duas divisões, enjoy:
Postado por Sonat às 15:56 4 comentários
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
O Piropo
Às vezes a minha vida tem um quê de kafkiano.
Há uns tempos ia a descer a Duque de Loulé com o Hugo, em direcção a casa. Eram umas 11 da noite e avisto ao fundo do quarteirão um dos mendigos aqui da zona.
No meu quarteirão há muitos mendigos.
Há um que dorme à entrada do meu prédio todas as noites e resmunga sempre que chegamos tarde a casa por fazermos barulho ao abrir a porta da rua.
Há um que veste um casaco cor de vinho e consegue ficar horas de pé a fitar fixamente o vazio. Uma vez saí de casa às 9 da manhã e encontrei-o no meio do passeio a olhar para o outro lado da estrada. Voltei a casa eram 5 da tarde e ele estava na mesma exacta posição, no mesmo exacto sítio. Estou convencido que não pestanejou uma única vez nesse espaço de tempo. Gostava de saber o que lhe ia na cabeça.
Há um, e foi este em particular que vi nessa noite de que vos falo, que desperta em mim um enorme fascínio. Tem uma longa barba negra, espessa e impenetrável, um ninho de cabelos negros enriçados e está sempre completamente bêbado, com os olhos esgazeados, vermelhos de sangue. Costuma vaguear lentamente pela rua com um ar meio delirante e de vez em quando prega um berro altíssimo numa voz cavernosa que assusta toda a gente em volta. Nesse berro ele diz sempre a mesma frase, uma frase que me apoquenta, que me surge à noite quando não consigo dormir, uma frase críptica que oculta uma verdade profunda que não consigo deslindar por completo:
"ISTO É TUDO CARNE PA CANHÃO!!!"
Este homem é um filósofo.
Possui uma outra frase que costuma gritar aos outros mendigos. Grita tão alto que às vezes ouço-o em minha casa, no quarto andar:
"VAI-ME FAZER ESSA BARBA!!!!"
À primeira vista esta frase pode parecer mais mundana que a anterior, mas estou convencido que ela esconde uma profunda crítica social e que ao gritá-la este homem pretende alertar-nos para a mesquinhez da condição humana - quão frequente é condenarmos nos outros coisas que nós próprios temos ou fazemos?
Este homem é um génio, uma cabeça à frente no seu tempo.
Este homem é muito provavelmente a encarnação de Deus, que veio ao mundo na forma de um mendigo bêbado para nos pôr à prova. Pois ele grita alto e bom som verdades maiores que a vida, mas como por fora parece apenas um bêbado maluquinho e malcheiroso as pessoas não lhe ligam.
Eram então 11 da noite nesse dia e estava ao fim do quarteirão o mendigo filósofo, com o seu olhar estrábico. Caminhamos na sua direcção e no sentido oposto vemos uma mulher que era um autêntico avião, vestida com roupas muito justas e um decote voluptuoso. Ficámos os três a olhar para ela - eu, o Hugo e o mendigo.
Quando estávamos próximo de nos intersectar todos uns com os outros, o mendigo enche os pulmões e grita o piropo mais invulgar que já ouvi:
"OVOS COM ANANÁS É BOM!!!"
A rapariga deu um pulo, quase se desiquilibrando nos seus saltos altos.
...
"É bom é."
Depois deste episódio insólito continuamos a descer a rua. Ao fim de 20 metros viro-me para o Hugo: "Mas ovos como? Fritos? Cozidos? Mexidos?"
O Hugo reflecte durante uns instantes e vira costas, voltando a subir a rua, para ir ter com o mendigo. Chega ao pé dele e pergunta-lhe, "olhe desculpe, mas isso é ovos fritos, mexidos, ou como?"
E o mendigo responde-lhe: "Ou fritos ou mexidos."
Impressiona-me o facto de todas as frases produzidas por aquela boca serem tão intrigantes. Pois ele respondeu convictamente "ou fritos ou mexidos". Sendo que há tantas maneiras de fazer ovos (escalfados, cozidos, recheados, panados, etc) qual é a probabilidade de as duas únicas maneiras de comer ovos com ananás correspondam precisamente àquelas que o Hugo sugeriu na sua pergunta? Por outro lado, será que ele queria apenas dizer que não podiam ser fritos e mexidos ao mesmo tempo, tentando desta forma chamar a atenção para o facto de que não podemos ter tudo e que a vida é feita de opções e sacrifícios?
Perco muito tempo a matutar neste assunto.
Os mendigos do meu bairro costumam reunir-se a ver televisão na montra da loja da Sony, mesmo ao lado do meu prédio. Ficam ali horas e horas a ver a bola, as novelas, os reclames, o que quer que esteja a dar.
Recentemente fizeram uma vaquinha com o dinheiro das esmolas e foram aos chineses comprar um comando universal, para poderem mudar de canal.
Às vezes a vida tem um quê de kafkiano.
Postado por Sonat às 19:21 9 comentários
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terça-feira, 4 de dezembro de 2007
V for Vendetta
O Hugo, para se vingar do meu post anterior, trancou-se no meu quarto e mudou-me a pass do youtube, para que eu não conseguisse fazer o login.
São 3 da manhã. Através de um processo moroso consegui recuperar a minha conta do youtube e mudei de novo a sua pass. Fiz o mesmo com todas as minhas contas online de email, messenger, etc, o que foi trabalhoso, mas não podia correr riscos.
Fiz também uma password sem a qual não se consegue entrar no meu windows e tentei fazer uma para a protecção de écran, que activaria ao fim de um minuto de inactividade, mas infelizmente não o consegui concretizar. É pena porque já tinha escolhido uma protecção de écran muito apropriada.
Dei-me a todo este trabalho porque antes disso consumei uma contra-vingança desproporcionada, da qual me sinto orgulhoso:
Consegui hackar praticamente em todas as contas online do Hugo, incluindo a dos seus dois emails, a do youtube, a do blogger, a do messenger, a do IMDB e não sei se não me estarei a esquecer de mais alguma.
Não consegui hackar o fenix, o mytmn, a caixa directa (não posso admitir que tenha tido esperanças) e o bet and win, este último porque não tive oportunidade uma vez que o site estava em baixo.
Em todas estas contas mudei a pass para outra que diz algo humilhante para o Hugo. A nova passe de momento permanece apenas na minha posse.
Penso que ele terá uma pequena surpresa nos seus próximos logons, e apenas conseguirá perceber o que se passa quando vier visitar este blog...
Hugo, se me estás a ler neste momento gostaria de te dizer isto. Como já deves ter reparado, o último post que foi publicado no teu blog (http://por-motivos.blogspot.com) não foi escrito por ti. Pois bem, o texto desse mesmo post foi reencaminhado para toda a tua lista de contactos do yahoo...
Desejo-te um óptimo Natal.
Bem já é tarde, vou dormir.
Postado por Sonat às 03:02 6 comentários
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sábado, 1 de dezembro de 2007
O Berço da Vida
Gostaria de vos falar da casa que habito.
Gostaria de começar por referir que sou uma pessoa asseada, que aprecia a limpeza dos espaços que me rodeiam, que retira um sentimento de qualidade de vida quando pode deixar cair uma coisa no soalho e simplesmente voltar a pegar nela e agir como se nada tivesse acontecido.
Deixar cair alguma coisa no soalho da casa em que habito é uma tragédia.
É como quando o herói apanha a mão da mulher que ama mesmo a tempo de a impedir de cair no precipício, perto do clímax do MAM (Mainstream Action Movie) e a imagem fica em câmara lenta e eventualmente a mão escorrega e ela cai, e eles olham-se nos olhos durante a queda, exprimindo nesse olhar todos os sentimentos inconfessados, acompanhados de uma música dramática com violinos e ele grita um "Não" que se prolonga por vinte segundos. É bonito e comovente de se ver num MAM, mas a realidade com que eu convivo é muito pior.
Se deixares cair uma coisa no meu soalho o mais sensato a fazer é incinerá-la.
Teorema: O chão da minha cozinha é um isomorfismo que transforma todo o objecto cadente de massa M num monte de merda amorfo com massa igual ou superior a 2M.
Demonstração: empírica.
Topologia do meu soalho:
Há uma camada heterogénea que cobre toda a extensão exposta ao ar formada por pó, cabelos, pintelhos, pedaços de picocas, flocos de cereais, migalhas de pão e outras partículas provenientes de comida em geral. Esta camada apresenta uma espessura média de aproximadamente 2 milímetros, apresentando em diversos pontos aglomerados de cotão mantidos coesos por uma mistura de cabelos e pintelhos. Há locais que têm maior concentração de pintelhos, como a casa-de-banho e outros em que é a comida que predomina (cozinha). Por cima desta camada encontram-se espalhadas aleatoriamente enormes quantidades de louça e roupa suja. A roupa suja tende a concentrar-se em grandes montanhas no Hall, impedindo a entrada no apartamento e também no chão da casa-de-banho, na marquise, e no quarto do Zé. Estes últimos três sítios são dos menos convenientes para se amontoar roupa porque são os sítios mais nojentos da casa.
A casa-de-banho porque o chão está sempre cheio de poças que nem sempre são de água.
A marquise porque é o sítio onde está o balde do lixo, sendo que o balde é apenas um ponto de referência, é mais rigoroso dizer que a marquise é, em si, o lixo; e onde está também a máquina de lavar roupa, que verte água.
O quarto do Zé pelas razões óbvias, isto é, por definição.
Para vos dar agora uma visão mais completa, há que referir ainda o estado da sanita, que infelizmente é indescritível utilizando apenas o vocabulário da língua portuguesa, mas do qual se pode dar uma boa aproximação definindo-o como o superlativo do repugnante; a banheira, que tem quase tantos pêlos e cabelos como o soalho e uma massa crítica deles no ralo, estando ainda pululada por rolos vazios e semicheios de papel higiénico que o Zé está sempre a deixar cair lá dentro, folhas de cadernos (não me peçam para explicar) e embalagens de shampô vazias que nunca chegam a ser deitadas fora; o lava-loiças que se devia chamar o "guarda-loiça-suja"; o frigorífico, do qual apresento a nossa definição muito própria:
frigorífico, s. m. - local onde se armazenam grandes quantidades de alimentos frescos e caixas vazias que em tempos contiveram alimentos.
De notar que esta definição omite o facto de que os alimentos não ficam armazenados para sempre, mas fá-lo não por ser óbvio que não ficam, é precisamente pelo motivo contrário. De facto, os únicos alimentos que chegam a ser alguma vez retirados do interior do frigorífico são os que estão à vista de quem abre a porta. Os restantes são deixados a apodrecer indefinidamente, até que se passa tanto tempo que se transformam num líquido negro e viscoso que conflui para a poça negra e viscosa que está na última prateleira. O espaço que antes ocupavam é preenchido por um novo conjunto de alimentos, que por não estarem à vista enfrentarão o mesmo amargo destino. This is never-ending.
Há ainda a mesa da cozinha que é onde comemos. Raramente vemos o tampo, que é de um branco tão bonito, porque normalmente a mesa está também ela coberta de loiça suja, comida em variados estados de putrefacção, caixas de pizza, migalhas, garrafas, cascas, e podia continuar esta enumeração Ad Infinitum e Ad Nauseum.
Não é de espantar, de facto, que sempre que vem cá um novo convidado ele franza o nariz e pergunte se nós não teremos trancado por engano o gato na despensa e que nos tenhamos esquecido de lá ir durante seis meses.
Essa é a altura em que eu admito, envergonhado, que não temos nenhum gato, nem vivo nem morto e faço um ar encavacado até o convidado mudar de assunto ou eventualmente ir-se embora, agoniado.
Falei-vos da minha casa e de como ela é suja, nauseabunda e repugnante.
Mas nem tudo é mau na minha casa.
De facto, no mais medonho dos sítios pode acontecer a mais bonita e maravilhosa das coisas.
A minha casa, amigos - e friso - é um Berço da Vida.
Nos sítios mais inesperados (ou não) prolifera vida nesta casa. Quantas vezes não vou buscar comida ao frigorífico e encontro lá no fundo uma caixa de tomates, já podres, de onde brotam fungos com grandes pêlos?
Quantas vezes não encontro esses mesmos fungos em embalagens abertas e semi-cheias de iogurte, na fruta, em variados legumes e em tantos outros alimentos?
Bolores no pão, dezenas de mosquinhas nas prateleiras, nas quais se encontram batatas podres com panóplias de colónias dos mais variados seres vivos.
E quando, após vários meses, decidimos tirar a montanha de roupa suja da marquise e descobrimos que as camadas superiores de roupa, ao abafarem as inferiores, criaram condições óptimas de temperatura e humidade para que, juntamente como o suor, o chulé e a água podre que verte da máquina de lavar, se criasse um morno ninho no qual se desenvolveu um gigantesco bolor?
Nestas alturas enchemo-nos de um orgulho paternal por toda a vida que nos rodeia, que para todos os efeitos fomos nós que criámos, mesmo sem o pretendermos.
E sentimo-nos unos com Deus.
De facto não, porque todos nós somos ateus.
De facto, o que acontece é que nos sentimos Deuses.
E perguntamo-nos, até onde pode isto ir? Até que ponto pode a vida proliferar num ambiente como este, que para todos os efeitos é uma fonte limitada de matéria orgânica?
E nesta linha de pensamentos o Hugo resolveu fazer uma experiência. Retirou do frigorífico uma taça que em tempos conteve uma papa de inertes flocos de aveia e que agora era um universo diversificado e luxuriante de fungos, bolores e sabe-se lá que mais. Colocou-a sobre a máquina de lavar e cobriu-a com uma marmita.
E ali deixou aquilo durante semanas.
Ocasionalmente levantava a marmita e observava o ecossistema fechado que ali tinha sido criado. Uma floresta exótica, infestada por dezenas de minúsculas mosquinhas que esvoaçavam incessantemente ali em volta.
A proliferação abrandou rapidamente. Ao cabo de 3 meses a taça era o retrato da morte. O ecossistema não era auto-sustentável e colapsou. Aquilo que em tempos fora um impressionante caldo de vida era agora uma massa preta, sólida, opaca, imperscrutável.
Deitámos a taça e a marmita fora. No tampo da máquina de lavar ainda se pode ver uma auréola negra formada por dezenas de minúsculas moscas mortas. Vamos deixá-la lá para sempre, como tributo a esta bonita colónia que já não está entre nós.
Recentemente aconteceu um novo milagre e desta feita de forma totalmente fortuita.
O Marco foi lá a casa fazer um dos seus maravilhosos cozinhados. Em vez de vos dar a receita deste prato específico, vou antes dar-vos algo mais valioso, que é o algoritmo utilizado pelo Marco em qualquer receita:
Cozinhado à la Robalo
- Encha uma grande panela de água até acima, independentemente da quantidade de comida que pretende cozinhar. Ponha-a ao lume, destapada.
- Ponha todos os ingredientes que quiser dentro da panela, desde que contenham apenas uma porção infinitesimal de gordura. Não descasque, corte ou pique o que quer que seja, para conservar o sabor naturalmente merdoso dos alimentos. Para evidenciar ainda mais este aspecto, abdique de quaisquer condimentos, em particular do sal.
- Espere um quantidade arbitrária de tempo, desde que maior do que 15 minutos (por algum motivo este minorante não é função nem da quantidade de comida nem da intensidade da chama).
-Use uma concha de sopa para se servir. Não escorra a água pois pode correr o risco de que o cozinhado não fique completamente empapado e insípido.
Nota: Se não consumir tudo na altura guarde o restante no frigorífico (SEM ESCORRER!!!) e coma no dia seguinte sem aquecer.
Voltando onde estávamos, os ingredientes que o Marco adicionou nesta situação concreta foram arroz, batata, cenoura, pescada, e couve, tudo inteiro e por descascar. Naturalmente não se comeu quase nada.
No dia seguinte o Marco foi embora e a panela ficou lá, cheia de comida até 3/4.
Eu recusei-me a lavar a panela. O Hugo recusou-se a lavar a panela.
A panela é do Zé. Como vimos anteriormente, por definição, o Zé não se importou com o facto de ninguém lavar a panela.
Tapámos a panela e pusemo-la ao lado do fogão para que o marco a lavasse na próxima visita.
A próxima visita só decorreu passado um mês, altura em que já era tarde demais.
Poucos dias antes da chegada do Marco destapamos pela primeira vez a panela. O cozido tinha-se transformado numa pasta castanho clara, muito espessa, com pequenas poças de um caldo igualmente castanho. Fora do caldo proliferavam vários fungos, nada de muito anormal, mas deixa ver melhor o que é isto?...
...
...
LARVAS!!!!!!!!!!!! OMmotherfuckingG!!!
Dezenas de larvas brancas a contorcerem-se numa pasta castanha amorfa!
E depois olhamos melhor e nas poças de caldo notamos uma borbulhagem...
MAIS LARVAS!!!! E MUITÍSSIMO MAIORES!!! E NÃO PÁRAM DE SE CONTORCER DE FORMA REPUGNANTE, DANDO A ILUSÃO QUE O CALDO BORBULHA!
Acreditem que dá voltas ao estômago.
Gostava que a minha descrição fosse mais vívida, mas espero que tenham ficado com a noção. Aquilo era uma coisa à filme de terror.
Do tipo, tão a ver quando um bicho morre e depois é comido por larvas?
That's what i'm talkin' about...
Fuck!
De alguma forma, aquela conjugação de alimentos formou uma autêntica fornalha de matéria orgânica. Mesmo depois de fecharmos a panela um cheiro pungente persistiu durante muitos minutos. Dias depois, quando voltámos a levantar a tampa, novo choque:
As larvas espalhavam-se ao longo das paredes da panela. Estavam a trepá-la, a querer sair. Já havia algumas na parte de dentro da tampa!
Holy fuck, esta panela tem de ir para o lixo e é já!
...
Por outro lado....
Esta merda é mesmo nojenta, temos mesmo de mostrá-la a toda a gente que conhecemos!!
Assim a panela ainda ficou por lá durante vários dias. Só levantávamos a tampa para mostrar o espectáculo aos visitantes que apareciam.
Ontem eu e o Zé decidimos por-nos a arrumar a cozinha. Normalmente não o fazemos porque como somos de física sabemos que a entropia de um sistema tende sempre a estabilizar a partir de uma certa ordem. Depois de atingida essa ordem a cozinha já não se caga mais.
Aquilo a que muitos chamam de "aterro", nós chamamos o "ponto de equilíbrio".
Estávamos a arrumar a cozinha e nisto eu levanto um saco do chão ao lado do frigorífico e encontro por baixo dele uma conjunção de pequenos bastonetes brancos. Zoom in. Zoom in.
LARVAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Um carreiro de larvas, mesmo encostadas à parede, claramente vindas da panela (de que outro sítio podiam vir?) e que se esgueiravam para trás do frigorífico.
Em poucos dias, sem que nunca nos tivéssemos apercebido, estas larvas conseguiram de alguma forma fugir da panela e percorrer os 2 metros que as separavam do local onde as encontrei...
E depois, horror dos horrores, o carreiro continuava por ali fora, arredámos o frigorífico e deparámo-nos com uma visão horripilante... Mais de uma dúzia de larvas já ali tinham ido parar... Estavam duas molas da roupa no chão por baixo do frigorífico, fui apanhá-las e larguei-as de terror ao aperceber-me que estavam cheias de larvas por baixo.
Eu vivo com duas pessoas nojentas mas que são extremamente hipocondríacas. Para o Zé estava fora de questão simplesmente varrer as larvas dali para fora e pô-las no lixo e levar o lixo e a panela de uma vez para sempre daqui para fora.
O Zé precisava de álcool. Procurou por toda a casa, escrupulosamente. Não encontrou.
"Não há álcool em lado nenhum", disse ele abatido, quando voltou à cozinha depois de ter virado o apartamento todo ao contrário, esvaziando gavetas e armários.
Olhei para ele compadecido, fui à casa-de-banho e peguei na garrafa cheia de álcool que estava em cima do lavatório. Os olhos do Zé brilharam fulgurosamente quando a viu. Arrancou-ma das mãos e começou a esguichar aquilo pelo chão todo atrás do frigorífico.
Quando o vi a fazer aquilo confesso que tive um mau pressentimento. Estamos a falar ainda de um metro quadrado de chão. Por cima do qual estão os cortinados da janela da marquise...
Peguei rapidamente nos cortinados e afastei-os. O Zé ateou fogo a um pedaço de papel e deixou-o cair na poça de álcool.
No instante em que tocou no álcool a chama alastrou quase instantaneamente para toda a área que tinha sido irrigada, com um som característico da combustão. Chegou até mim uma onda de calor enquanto o meu cérebro tentava processar o facto de estar a ver a minha marquise a arder.
É tipo imaginares teres uma fogueira a arder no chão da sala... Sei lá, o cérebro faz curto-circuito, é que não estamos a falar de uma labaredazinha, mas de um metro quadrado de chão e paredes em chamas, um pequeno incêndio ali.
Eventualmente o fogo extinguiu-se e eu chamei a atenção para uma área que tinha larvas mas na qual o fogo não tinha estado. O Zé voltou a esguichar álcool para ali. Reparou que uma das molas ainda estava incandescente e, acto contínuo, trouxe o esguicho directamente até à mola.
O carreiro de álcool pegou fogo como um rastilho, e deflagrou um novo pequeno incêndio na parede.
Ok, aquela cena do rastilho, blá blá blá que o fogo podia ter subido pelo esguicho e entrado pela garrafa, blá blá blá, bem, tenho a dizer isto: aquilo foi E-S-T-I-L-O-S-O...
O fogo consumiu-se e restou apenas uma nuvem de fumo com cheiro a fogueira.
Varremos os detritos. Estava na hora de nos livrarmos da panela.
Quando olhámos com mais atenção para a panela verificámos que na tampa, nas paredes e na zona circundante se podiam ver de facto muitas pequenas larvas, que passavam muito facilmente despercebidas a um olho desatento.
Completamente creeped out tapámos a panela, colámos a tampa com fita cola, pusémo-la num saco e fomos pôr o saco no lixo- não no lixo do prédio, mas num contentor a uns duzentos metros de distância.
Chegados a casa estava na hora de nova purga - desta feita na zona circundante ao sítio onde a panela estava, que designadamente era ao lado do fogão, que por acaso até é um aparelho doméstico alimentado a propano ALTAMENTE INFLAMÁVEL.
A sorte é que o Zé tem um instinto piromaníaco tão apurado que nem sequer esperou que racionalizássemos o que estávamos a fazer, despejou álcool por ali em volta e vá de pegar fogo àquela merda.
Retirei atabalhoadamente os panos de cozinha que estavam pendurados ali perto e fiquei a apreciar o efémero incêndio que decorreu ao lado do meu fogão.
Ah beleza. Ah esterilidade.
Aprendemos assim que não devemos brincar aos Deuses... The Hard Way...
Aprendemos a nossa lição, suspirámos satisfeitos com o desfecho da história...
Missão cumprida.
...
Or is it?...
Apanho uma t-shirt no chão do hall para ver se é minha e por baixo dela vejo um grão de arroz. Não sei se é o meu cérebro a querer acreditar que é um grão de arroz, mas a verdade é que nem ligo, chego ao pé do Zé e decido pregar-lhe uma partida: "Zé, tinhas uma larva debaixo da t-shirt!!"
O Zé aterrorizado vai ao hall, eu digo-lhe que estava só no gozo e ele diz-me "Tavas no gozo?????? ENTÃO QUÉSTA MERDA?????".
Era um bago de arroz. A contorcer-se...
...
Devo referir que o sítio onde estava a t-shirt ficava a uns 6 metros da panela.
Por muito que o autor gostasse de o negar, todo o relato precedente é mesmo verdade, na íntegra.
Esta história pode ser corroborada em parte aqui, por uma testemunha que assistiu a metade dela.
Postado por Sonat às 22:34 5 comentários
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