Sobre este blog

Este blog publica exclusivamente conteúdo original da minha autoria (ver à direita) e serve o único propósito de garantir a minha imortalidade:

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- In Is Google God?

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

V for Vendetta

O Hugo, para se vingar do meu post anterior, trancou-se no meu quarto e mudou-me a pass do youtube, para que eu não conseguisse fazer o login.

São 3 da manhã. Através de um processo moroso consegui recuperar a minha conta do youtube e mudei de novo a sua pass. Fiz o mesmo com todas as minhas contas online de email, messenger, etc, o que foi trabalhoso, mas não podia correr riscos.

Fiz também uma password sem a qual não se consegue entrar no meu windows e tentei fazer uma para a protecção de écran, que activaria ao fim de um minuto de inactividade, mas infelizmente não o consegui concretizar. É pena porque já tinha escolhido uma protecção de écran muito apropriada.

Dei-me a todo este trabalho porque antes disso consumei uma contra-vingança desproporcionada, da qual me sinto orgulhoso:

Consegui hackar praticamente em todas as contas online do Hugo, incluindo a dos seus dois emails, a do youtube, a do blogger, a do messenger, a do IMDB e não sei se não me estarei a esquecer de mais alguma.

Não consegui hackar o fenix, o mytmn, a caixa directa (não posso admitir que tenha tido esperanças) e o bet and win, este último porque não tive oportunidade uma vez que o site estava em baixo.

Em todas estas contas mudei a pass para outra que diz algo humilhante para o Hugo. A nova passe de momento permanece apenas na minha posse.

Penso que ele terá uma pequena surpresa nos seus próximos logons, e apenas conseguirá perceber o que se passa quando vier visitar este blog...

Hugo, se me estás a ler neste momento gostaria de te dizer isto. Como já deves ter reparado, o último post que foi publicado no teu blog (http://por-motivos.blogspot.com) não foi escrito por ti. Pois bem, o texto desse mesmo post foi reencaminhado para toda a tua lista de contactos do yahoo...

Desejo-te um óptimo Natal.

Bem já é tarde, vou dormir.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A Vida depois do Teorema de Godel

No outro dia pus-me a ler o artigo da Wikipedia sobre o Teorema da Incompletude de Godel, que de agora em diante designarei por TIG.

Não sei se o percebi bem, mas se percebi, é das coisas mais brutais que já me foram dadas a conhecer.

Como achei que o artigo não estava muito bem explicado tentarei eu próprio expor o seu conteúdo de uma forma que considero mais legível, na esperança que este teorema possa ter um impacto tão grande no leitor como teve em mim. Por outro lado, se o leitor for um entendido na matéria e verificar que estou a dizer alguma bacorada, peço-lhe que me corrija.

Uma das coisas que falta no artigo da wiki é contextualização, por isso é por aí que começo:

Uma Teoria matematizada, e é a este grupo que pertencem todas as teorias desenvolvidas de forma rigorosa, num sentido muito geral, é uma estrutura constituída por dois alicerces:

1. Um conjunto de axiomas, ou verdades auto-evidentes, isto é, um conjunto de proposições cuja validade é tão óbvia que se considera desnecessário prová-la.

2. Um sistema formal, ou seja, um conjunto de regras lógicas cuja validade também tem de ser assumida.

Isto significa em particular que uma Teoria é sempre limitada na medida que precisa sempre de pressupostos para ser construída e não existe nenhuma maneira recursiva de testar a validade destes pressupostos (daí o seu nome).

A partir dos axiomas usa-se o sistema formal (as regras) para retirar corolários, isto é, proposições que também são verdadeiras em consequência dos axiomas serem verdadeiros.

Estes corolários são os teoremas.

Uma teoria diz-se completa se todas as proposições verdadeiras podem ser derivadas dos axiomas utilizando o sistema formal, isto é, se não fica nenhuma verdade de fora, se não há verdades que não sejam consequência dos axiomas.

Uma teoria diz-se consistente se nunca for possível derivar dos seus axiomas duas proposições contraditórias, ou seja, se uma proposição e a sua negação não podem ser ambas verdadeiras.

Peço ao leitor que antes de prosseguir absorva bem o significado destas duas propriedades. Fui propositadamente redundante ao defini-las, para que o que vou dizer a seguir tenha mais impacto.

O TIG diz o seguinte:

Uma teoria não pode ser simultaneamente completa e consistente.

Pensem nisto.

O TIG deita por terra de uma vez e para sempre o objectivo final da física: derivar todas as leis do universo a partir de um conjunto de propriedades básicas, fundamentais.

...

Agora que a minha motivação com o meu curso estava no seu ponto mínimo, sai-me um teorema que faz o resto do trabalho.

This is worthless.


_________
Algumas das consequências científicas e filosóficas do TIG, bem como a ideia que está por trás da demonstração (de uma simplicidade infantil, como muitas das mais geniais ideias) podem ser encontradas aqui.

Obs. - Na minha exposição omiti alguns pormenores técnicos e cometi algumas imprecisões porque quis reduzi-la ao mínimo de maneira a que a ideia fosse plenamente legível.

sábado, 1 de dezembro de 2007

O Berço da Vida

Gostaria de vos falar da casa que habito.

Gostaria de começar por referir que sou uma pessoa asseada, que aprecia a limpeza dos espaços que me rodeiam, que retira um sentimento de qualidade de vida quando pode deixar cair uma coisa no soalho e simplesmente voltar a pegar nela e agir como se nada tivesse acontecido.

Deixar cair alguma coisa no soalho da casa em que habito é uma tragédia.

É como quando o herói apanha a mão da mulher que ama mesmo a tempo de a impedir de cair no precipício, perto do clímax do MAM (Mainstream Action Movie) e a imagem fica em câmara lenta e eventualmente a mão escorrega e ela cai, e eles olham-se nos olhos durante a queda, exprimindo nesse olhar todos os sentimentos inconfessados, acompanhados de uma música dramática com violinos e ele grita um "Não" que se prolonga por vinte segundos. É bonito e comovente de se ver num MAM, mas a realidade com que eu convivo é muito pior.

Se deixares cair uma coisa no meu soalho o mais sensato a fazer é incinerá-la.

Teorema: O chão da minha cozinha é um isomorfismo que transforma todo o objecto cadente de massa M num monte de merda amorfo com massa igual ou superior a 2M.

Demonstração: empírica.


Topologia do meu soalho:

Há uma camada heterogénea que cobre toda a extensão exposta ao ar formada por pó, cabelos, pintelhos, pedaços de picocas, flocos de cereais, migalhas de pão e outras partículas provenientes de comida em geral. Esta camada apresenta uma espessura média de aproximadamente 2 milímetros, apresentando em diversos pontos aglomerados de cotão mantidos coesos por uma mistura de cabelos e pintelhos. Há locais que têm maior concentração de pintelhos, como a casa-de-banho e outros em que é a comida que predomina (cozinha). Por cima desta camada encontram-se espalhadas aleatoriamente enormes quantidades de louça e roupa suja. A roupa suja tende a concentrar-se em grandes montanhas no Hall, impedindo a entrada no apartamento e também no chão da casa-de-banho, na marquise, e no quarto do Zé. Estes últimos três sítios são dos menos convenientes para se amontoar roupa porque são os sítios mais nojentos da casa.

A casa-de-banho porque o chão está sempre cheio de poças que nem sempre são de água.

A marquise porque é o sítio onde está o balde do lixo, sendo que o balde é apenas um ponto de referência, é mais rigoroso dizer que a marquise é, em si, o lixo; e onde está também a máquina de lavar roupa, que verte água.

O quarto do Zé pelas razões óbvias, isto é, por definição.

Para vos dar agora uma visão mais completa, há que referir ainda o estado da sanita, que infelizmente é indescritível utilizando apenas o vocabulário da língua portuguesa, mas do qual se pode dar uma boa aproximação definindo-o como o superlativo do repugnante; a banheira, que tem quase tantos pêlos e cabelos como o soalho e uma massa crítica deles no ralo, estando ainda pululada por rolos vazios e semicheios de papel higiénico que o Zé está sempre a deixar cair lá dentro, folhas de cadernos (não me peçam para explicar) e embalagens de shampô vazias que nunca chegam a ser deitadas fora; o lava-loiças que se devia chamar o "guarda-loiça-suja"; o frigorífico, do qual apresento a nossa definição muito própria:

frigorífico, s. m. - local onde se armazenam grandes quantidades de alimentos frescos e caixas vazias que em tempos contiveram alimentos.

De notar que esta definição omite o facto de que os alimentos não ficam armazenados para sempre, mas fá-lo não por ser óbvio que não ficam, é precisamente pelo motivo contrário. De facto, os únicos alimentos que chegam a ser alguma vez retirados do interior do frigorífico são os que estão à vista de quem abre a porta. Os restantes são deixados a apodrecer indefinidamente, até que se passa tanto tempo que se transformam num líquido negro e viscoso que conflui para a poça negra e viscosa que está na última prateleira. O espaço que antes ocupavam é preenchido por um novo conjunto de alimentos, que por não estarem à vista enfrentarão o mesmo amargo destino. This is never-ending.

Há ainda a mesa da cozinha que é onde comemos. Raramente vemos o tampo, que é de um branco tão bonito, porque normalmente a mesa está também ela coberta de loiça suja, comida em variados estados de putrefacção, caixas de pizza, migalhas, garrafas, cascas, e podia continuar esta enumeração Ad Infinitum e Ad Nauseum.

Não é de espantar, de facto, que sempre que vem cá um novo convidado ele franza o nariz e pergunte se nós não teremos trancado por engano o gato na despensa e que nos tenhamos esquecido de lá ir durante seis meses.

Essa é a altura em que eu admito, envergonhado, que não temos nenhum gato, nem vivo nem morto e faço um ar encavacado até o convidado mudar de assunto ou eventualmente ir-se embora, agoniado.

Falei-vos da minha casa e de como ela é suja, nauseabunda e repugnante.

Mas nem tudo é mau na minha casa.

De facto, no mais medonho dos sítios pode acontecer a mais bonita e maravilhosa das coisas.

A minha casa, amigos - e friso - é um Berço da Vida.

Nos sítios mais inesperados (ou não) prolifera vida nesta casa. Quantas vezes não vou buscar comida ao frigorífico e encontro lá no fundo uma caixa de tomates, já podres, de onde brotam fungos com grandes pêlos?

Quantas vezes não encontro esses mesmos fungos em embalagens abertas e semi-cheias de iogurte, na fruta, em variados legumes e em tantos outros alimentos?

Bolores no pão, dezenas de mosquinhas nas prateleiras, nas quais se encontram batatas podres com panóplias de colónias dos mais variados seres vivos.

E quando, após vários meses, decidimos tirar a montanha de roupa suja da marquise e descobrimos que as camadas superiores de roupa, ao abafarem as inferiores, criaram condições óptimas de temperatura e humidade para que, juntamente como o suor, o chulé e a água podre que verte da máquina de lavar, se criasse um morno ninho no qual se desenvolveu um gigantesco bolor?

Nestas alturas enchemo-nos de um orgulho paternal por toda a vida que nos rodeia, que para todos os efeitos fomos nós que criámos, mesmo sem o pretendermos.

E sentimo-nos unos com Deus.

De facto não, porque todos nós somos ateus.

De facto, o que acontece é que nos sentimos Deuses.

E perguntamo-nos, até onde pode isto ir? Até que ponto pode a vida proliferar num ambiente como este, que para todos os efeitos é uma fonte limitada de matéria orgânica?

E nesta linha de pensamentos o Hugo resolveu fazer uma experiência. Retirou do frigorífico uma taça que em tempos conteve uma papa de inertes flocos de aveia e que agora era um universo diversificado e luxuriante de fungos, bolores e sabe-se lá que mais. Colocou-a sobre a máquina de lavar e cobriu-a com uma marmita.

E ali deixou aquilo durante semanas.

Ocasionalmente levantava a marmita e observava o ecossistema fechado que ali tinha sido criado. Uma floresta exótica, infestada por dezenas de minúsculas mosquinhas que esvoaçavam incessantemente ali em volta.

A proliferação abrandou rapidamente. Ao cabo de 3 meses a taça era o retrato da morte. O ecossistema não era auto-sustentável e colapsou. Aquilo que em tempos fora um impressionante caldo de vida era agora uma massa preta, sólida, opaca, imperscrutável.

Deitámos a taça e a marmita fora. No tampo da máquina de lavar ainda se pode ver uma auréola negra formada por dezenas de minúsculas moscas mortas. Vamos deixá-la lá para sempre, como tributo a esta bonita colónia que já não está entre nós.

Recentemente aconteceu um novo milagre e desta feita de forma totalmente fortuita.

O Marco foi lá a casa fazer um dos seus maravilhosos cozinhados. Em vez de vos dar a receita deste prato específico, vou antes dar-vos algo mais valioso, que é o algoritmo utilizado pelo Marco em qualquer receita:

Cozinhado à la Robalo

- Encha uma grande panela de água até acima, independentemente da quantidade de comida que pretende cozinhar. Ponha-a ao lume, destapada.
- Ponha todos os ingredientes que quiser dentro da panela, desde que contenham apenas uma porção infinitesimal de gordura. Não descasque, corte ou pique o que quer que seja, para conservar o sabor naturalmente merdoso dos alimentos. Para evidenciar ainda mais este aspecto, abdique de quaisquer condimentos, em particular do sal.
- Espere um quantidade arbitrária de tempo, desde que maior do que 15 minutos (por algum motivo este minorante não é função nem da quantidade de comida nem da intensidade da chama).
-Use uma concha de sopa para se servir. Não escorra a água pois pode correr o risco de que o cozinhado não fique completamente empapado e insípido.

Nota: Se não consumir tudo na altura guarde o restante no frigorífico (SEM ESCORRER!!!) e coma no dia seguinte sem aquecer.


Voltando onde estávamos, os ingredientes que o Marco adicionou nesta situação concreta foram arroz, batata, cenoura, pescada, e couve, tudo inteiro e por descascar. Naturalmente não se comeu quase nada.

No dia seguinte o Marco foi embora e a panela ficou lá, cheia de comida até 3/4.

Eu recusei-me a lavar a panela. O Hugo recusou-se a lavar a panela.

A panela é do Zé. Como vimos anteriormente, por definição, o Zé não se importou com o facto de ninguém lavar a panela.

Tapámos a panela e pusemo-la ao lado do fogão para que o marco a lavasse na próxima visita.

A próxima visita só decorreu passado um mês, altura em que já era tarde demais.

Poucos dias antes da chegada do Marco destapamos pela primeira vez a panela. O cozido tinha-se transformado numa pasta castanho clara, muito espessa, com pequenas poças de um caldo igualmente castanho. Fora do caldo proliferavam vários fungos, nada de muito anormal, mas deixa ver melhor o que é isto?...

...


...


LARVAS!!!!!!!!!!!! OMmotherfuckingG!!!

Dezenas de larvas brancas a contorcerem-se numa pasta castanha amorfa!

E depois olhamos melhor e nas poças de caldo notamos uma borbulhagem...

MAIS LARVAS!!!! E MUITÍSSIMO MAIORES!!! E NÃO PÁRAM DE SE CONTORCER DE FORMA REPUGNANTE, DANDO A ILUSÃO QUE O CALDO BORBULHA!

Acreditem que dá voltas ao estômago.

Gostava que a minha descrição fosse mais vívida, mas espero que tenham ficado com a noção. Aquilo era uma coisa à filme de terror.

Do tipo, tão a ver quando um bicho morre e depois é comido por larvas?

That's what i'm talkin' about...

Fuck!


De alguma forma, aquela conjugação de alimentos formou uma autêntica fornalha de matéria orgânica. Mesmo depois de fecharmos a panela um cheiro pungente persistiu durante muitos minutos. Dias depois, quando voltámos a levantar a tampa, novo choque:

As larvas espalhavam-se ao longo das paredes da panela. Estavam a trepá-la, a querer sair. Já havia algumas na parte de dentro da tampa!

Holy fuck, esta panela tem de ir para o lixo e é já!

...

Por outro lado....

Esta merda é mesmo nojenta, temos mesmo de mostrá-la a toda a gente que conhecemos!!

Assim a panela ainda ficou por lá durante vários dias. Só levantávamos a tampa para mostrar o espectáculo aos visitantes que apareciam.

Ontem eu e o Zé decidimos por-nos a arrumar a cozinha. Normalmente não o fazemos porque como somos de física sabemos que a entropia de um sistema tende sempre a estabilizar a partir de uma certa ordem. Depois de atingida essa ordem a cozinha já não se caga mais.

Aquilo a que muitos chamam de "aterro", nós chamamos o "ponto de equilíbrio".

Estávamos a arrumar a cozinha e nisto eu levanto um saco do chão ao lado do frigorífico e encontro por baixo dele uma conjunção de pequenos bastonetes brancos. Zoom in. Zoom in.

LARVAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Um carreiro de larvas, mesmo encostadas à parede, claramente vindas da panela (de que outro sítio podiam vir?) e que se esgueiravam para trás do frigorífico.

Em poucos dias, sem que nunca nos tivéssemos apercebido, estas larvas conseguiram de alguma forma fugir da panela e percorrer os 2 metros que as separavam do local onde as encontrei...

E depois, horror dos horrores, o carreiro continuava por ali fora, arredámos o frigorífico e deparámo-nos com uma visão horripilante... Mais de uma dúzia de larvas já ali tinham ido parar... Estavam duas molas da roupa no chão por baixo do frigorífico, fui apanhá-las e larguei-as de terror ao aperceber-me que estavam cheias de larvas por baixo.

Eu vivo com duas pessoas nojentas mas que são extremamente hipocondríacas. Para o Zé estava fora de questão simplesmente varrer as larvas dali para fora e pô-las no lixo e levar o lixo e a panela de uma vez para sempre daqui para fora.

O Zé precisava de álcool. Procurou por toda a casa, escrupulosamente. Não encontrou.

"Não há álcool em lado nenhum", disse ele abatido, quando voltou à cozinha depois de ter virado o apartamento todo ao contrário, esvaziando gavetas e armários.

Olhei para ele compadecido, fui à casa-de-banho e peguei na garrafa cheia de álcool que estava em cima do lavatório. Os olhos do Zé brilharam fulgurosamente quando a viu. Arrancou-ma das mãos e começou a esguichar aquilo pelo chão todo atrás do frigorífico.

Quando o vi a fazer aquilo confesso que tive um mau pressentimento. Estamos a falar ainda de um metro quadrado de chão. Por cima do qual estão os cortinados da janela da marquise...

Peguei rapidamente nos cortinados e afastei-os. O Zé ateou fogo a um pedaço de papel e deixou-o cair na poça de álcool.

No instante em que tocou no álcool a chama alastrou quase instantaneamente para toda a área que tinha sido irrigada, com um som característico da combustão. Chegou até mim uma onda de calor enquanto o meu cérebro tentava processar o facto de estar a ver a minha marquise a arder.

É tipo imaginares teres uma fogueira a arder no chão da sala... Sei lá, o cérebro faz curto-circuito, é que não estamos a falar de uma labaredazinha, mas de um metro quadrado de chão e paredes em chamas, um pequeno incêndio ali.

Eventualmente o fogo extinguiu-se e eu chamei a atenção para uma área que tinha larvas mas na qual o fogo não tinha estado. O Zé voltou a esguichar álcool para ali. Reparou que uma das molas ainda estava incandescente e, acto contínuo, trouxe o esguicho directamente até à mola.

O carreiro de álcool pegou fogo como um rastilho, e deflagrou um novo pequeno incêndio na parede.

Ok, aquela cena do rastilho, blá blá blá que o fogo podia ter subido pelo esguicho e entrado pela garrafa, blá blá blá, bem, tenho a dizer isto: aquilo foi E-S-T-I-L-O-S-O...

O fogo consumiu-se e restou apenas uma nuvem de fumo com cheiro a fogueira.

Varremos os detritos. Estava na hora de nos livrarmos da panela.

Quando olhámos com mais atenção para a panela verificámos que na tampa, nas paredes e na zona circundante se podiam ver de facto muitas pequenas larvas, que passavam muito facilmente despercebidas a um olho desatento.

Completamente creeped out tapámos a panela, colámos a tampa com fita cola, pusémo-la num saco e fomos pôr o saco no lixo- não no lixo do prédio, mas num contentor a uns duzentos metros de distância.

Chegados a casa estava na hora de nova purga - desta feita na zona circundante ao sítio onde a panela estava, que designadamente era ao lado do fogão, que por acaso até é um aparelho doméstico alimentado a propano ALTAMENTE INFLAMÁVEL.

A sorte é que o Zé tem um instinto piromaníaco tão apurado que nem sequer esperou que racionalizássemos o que estávamos a fazer, despejou álcool por ali em volta e vá de pegar fogo àquela merda.

Retirei atabalhoadamente os panos de cozinha que estavam pendurados ali perto e fiquei a apreciar o efémero incêndio que decorreu ao lado do meu fogão.

Ah beleza. Ah esterilidade.

Aprendemos assim que não devemos brincar aos Deuses... The Hard Way...

Aprendemos a nossa lição, suspirámos satisfeitos com o desfecho da história...

Missão cumprida.


...


Or is it?...

Apanho uma t-shirt no chão do hall para ver se é minha e por baixo dela vejo um grão de arroz. Não sei se é o meu cérebro a querer acreditar que é um grão de arroz, mas a verdade é que nem ligo, chego ao pé do Zé e decido pregar-lhe uma partida: "Zé, tinhas uma larva debaixo da t-shirt!!"

O Zé aterrorizado vai ao hall, eu digo-lhe que estava só no gozo e ele diz-me "Tavas no gozo?????? ENTÃO QUÉSTA MERDA?????".

Era um bago de arroz. A contorcer-se...



...


Devo referir que o sítio onde estava a t-shirt ficava a uns 6 metros da panela.

Por muito que o autor gostasse de o negar, todo o relato precedente é mesmo verdade, na íntegra.

Esta história pode ser corroborada em parte aqui, por uma testemunha que assistiu a metade dela.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O Papalagui

Este é para mim um livro velho, daqueles que li na pré-adolescência e reli uns poucos anos depois. Por ocasião de me ter lembrado dele para o emprestar a um amigo reli-o hoje ao serão (é um livro curto) e é sem dúvida literatura recomendada.

Este livro é a compilação de um conjunto de textos escritos pelo chefe de uma tribo indígena das ilhas da polinésia, que os escreveu após uma extensa visita que fez à Europa, o mundo "civilizado".

Neles, ele tenta descrever ao seu povo o incompreensível modo de vida do "homem branco" - o Papalagui.

A sua visão da nossa sociedade é muito peculiar por ser uma visão totalmente "de fora". E é impressionante como nós parecemos quando somos vistos de fora...

Hoje estou com vontade de me por todo nu e ir viver para o meio do mato.

domingo, 25 de novembro de 2007

O Quinto Dia

Acabei anteontem de ler as 917 páginas d'"O Quinto Dia", de Frank Schatzing. Já não lia um romance há algum tempo e este era de grande envergadura, do tipo, se te cair em cima de um pé esmaga-te os dedos.

Sem dúvida que este livro deu-me que pensar e gostava de aproveitar o facto de ter este blog para comentá-lo, contudo há sempre aquele problema dos spoilers.

Como não quero spoilar farei apenas uma crítica geral ao texto.

O maior defeito deste livro é a inconsistência na escrita. O autor não tem um estilo próprio, mas antes uma grande variação de estilos, alguns dos quais francamente maus. Esta variação não parece ser propositada, mas mais uma consequência do autor se desleixar a certas alturas e simplesmente não se dar ao trabalho de investir numa boa narrativa. Isto é uma enorme pena porque este livro tem uma história muito boa por detrás, arrisco mesmo dizer uma das melhores histórias que já li. Ainda por cima, há alturas em que o autor revela que tem realmente potencial para escrever muito bem. Encontram-se no texto passagens muito vívidas que nos imergem profundamente na acção. Algumas arrepiam-nos, outras deixam-nos a reflectir, outras deixam-nas extasiados, outras criam-nos uma sensação de grande mistério, outras ainda fascinam-nos porque nos falam de coisas que nunca tínhamos pensado, ou que, por outro lado, nunca tínhamos pensado daquela maneira.

O problema é que de vez em quando somos pontuados por diálogos fraquíssimos, reflexões filosóficas de má qualidade que parecem retiradas do diário de um adolescente, e referências muito frequentes a filmes de hollywood para ajudar a concretizar certas descrições.

O livro, num estilo que se insinua cada vez mais nos romances modernos, está escrito como se fosse um filme; é extremamente visual na descrição e na própria narração - o narrador é quase como uma câmara que vai filmando acontecimentos, o que não é propriamente um defeito, mas mais um estilo que não aprecio muito.

A forma como a história vai sendo contada, por outro lado, está longe do perfeito. Não posso dizer que o autor tenha feito um mau trabalho, porque a história precisa de um grau elevado de contextualização, mas se no princípio foi criada uma atmosfera de mistério e suspense bastante interessante, mais para o fim parece haver de novo um desleixo na forma como as coisas são reveladas.

A história desenrola-se a uma escala mundial e relata eventos que têm repercurssões sérias do ponto de vista político, social, económico, militar entre outros. Se por um lado muitas destas facetas não são exploradas (o que é necessário para que nos foquemos mais na história central), as que são exploradas transmitem muitas vezes ideias ingénuas e inverosímeis da realidade e mais uma vez, muito dignas dos estereótipos de Hollywood. Isto foi das coisas que mais me desiludiu, principalmente porque não melhorou à medida que o livro se aproximava do final.

Não se focando em certos aspectos interessantes do cenário que criou para se concentrar na história principal, por outro lado o autor perde-se em caminhos algo fastidiosos como sejam a tentativa de conferir profundidade aos seus personagens. Encaremo-lo, este livro não é sobre pessoas nem sobre emoções; é sobre uma ideia espantosa que para poder resultar num romance precisa que hajam personagens. No entanto este livro tem muitas personagens - demasiadas. Como a acção se desenrola à escala global, tem personagens de todos os cantos do mundo e o autor aproveita para se espraiar nos pormenores pitorescos dos seus países e culturas, o que nem é muito mau, o problema é que ele insiste em dar um background histórico a grande parte delas, o que não contribui em nada para a história e na verdade não acrescenta nenhum valor ao livro.

A minha última crítica pode ser algo mesquinha, mas não deixa de reflectir a minha opinião. Um livro pode ter, como este, mil páginas, mas não há nada mais importante nele do que a maneira como começa e a maneira como acaba.

No que toca ao começo, a analogia de conhecer uma pessoa funciona perfeitamente: a primeira impressão tem um peso enorme. Por mais que nos consideremos pessoas não superficiais, não conseguimos deixar de julgar uma pessoa nova por aquilo que ela aparenta ser na primeira vez que a conhecemos, e é isso que vai definir por completo a maneira como vamos olhar para ela enquanto a vamos conhecendo. No caso do livro acontece o mesmo: preparo-me para ler um calhamaço do qual não sei nada. O princípio define o ambiente e condiciona quase por completo a predisposição com que me ponho a ler o livro.

Este livro tem um mau começo. É um daqueles começos banais, comerciais, estereotipados, com a agravante de ser demasiado grande e enfastiante.

A importância do final nem preciso de a enaltecer - a maneira como um livro ou filme acaba define praticamente no todo a opinião final com que ficamos dele. O meio pode ter sido uma porcaria, mas um final arrebatador compensa tudo, faz-nos rapidamente esquecer a mediocridade do que está para trás.

O final é a coisa que fica mais marcada na memória, por ser a última e daí a necessidade de acabar em grande.

O final deste livro também não é grande coisa. Diria mesmo que o epílogo é um anticlímax completamente desnecessário, com mais uma daquelas reflexões filosóficas meio adolescentes. Este livro deixou-me por várias vezes num estado de reflexão, quando interrompia a leitura, mas não foi que me aconteceu quando o acabei, o que lamento.

Acabadas as críticas talvez vos tenha deixado com a ideia de que o livro não presta, mas nada podia estar mais longe da verdade. Como referi anteriormente, este livro tem uma ideia central mesmo muito boa (e assustadoramente plausível) que é muito bem desenvolvida e a propósito da qual se retiram reflexões extremamente profundas. Tem descrições muito bem feitas e em particular descreve coisas a que estamos habituados a conceber mas de formas totalmente novas e fascinantes.

Bem, para aguçar mais a vossa curiosidade não posso deixar de revelar algum conteúdo, por isso a partir de agora deixo as coisas por vossa conta e risco.

Para vos ajudar a decidir quando for melhor parar de ler, vou dividir a minha exposição em secções com níveis crescentes de spoilers, começando a partir do próximo parágrafo. Chamo a atenção para o facto de existir um ponto sem retorno, isto é, para quem não estiver mesmo interessado em ler o livro, eu vou eventualmente contar aqui todo o enredo principal. Escusado será dizer que tem muito mais piada se se ler o livro, no entanto tentarei manter o suspense e dar algum impacto à história.

**SPOILERS - NÍVEL 1**

Os sintomas de algo de muito estranho começam a insinuar-se por todo o mundo.

Nas costas sulamericanas ocorrem desaparecimentos misteriosos de pescadores em dias de mar calmo e céu limpo.

Em Vancouver, no Canadá, as excursões para ver baleias não encontram uma única baleia, numa altura do ano em que SEMPRE se viram baleias, porque elas SEMPRE passaram ali no curso da sua migração.

Uma companhia petrolífera sonda o solo submarino com o objectivo de fazer uma plataforma de extracção nos mares da Noruega e encontra lá algo de perturbador. A vertente continental submarina está completamente infestada por biliões de espécimes de um verme novo, totalmente desconhecido da ciência, que possui poderosos maxilares e presas.

O mundo marinho está a sofrer visíveis perturbações que ao parecerem descorrelacionadas passam despercebidas à grande maioria da população, mas que rapidamente crescem em proporções chamando a atenção de vários cientistas e estudiosos por todo o mundo.

Aparentemente, o impacto do homem no meio ambiente está agora a fazer-se sentir nos mares. A extensa poluição dos oceanos, a pesca desenfreada, o aquecimento global, a brutal delapidação dos mares por intervenção humana interferiram no equilíbrio delicado de um ecossistema enorme e extremamente complexo. Estão a ocorrer alterações a grande escala no ventre submarino da Terra e elas não acabam aqui.

**SPOILERS - NÍVEL 2**

Continuo isto noutro dia... ou talvez não continue, logo vejo.