Sobre este blog

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domingo, 20 de abril de 2008

O Beijo

Estendido ao comprido, no meio da minha náusea vejo uma forma surgir do negrume, aproximando-se rapidamente, aumentando até se despedaçar contra a minha testa, pulverizando-me de uma frescura que é a antítese daquilo que sinto neste momento.

Estou em choque por isso não percebo logo o que é e só consigo fitar o céu negro, carregado e distante, numa tentativa de evitar a tontura que me provoca a cidade à minha volta, que não pára de rodar como um carrossel. Perto de mim, um enorme edifício ergue-se de entre as lajes sujas do pavimento e precipita-se nas alturas. Parece que se debruça sobre mim, lá do alto, vacilante, enquanto toda a realidade que me rodeia se escoa por um ralo invisível que centrifuga tudo na sua passagem.

Começo a sentir a consciência a desvanecer-se pacificamente, os sons a apagarem-se, a sensação de frio a transformar-se num morno torpor e por um momento parece que estou suspenso no vazio e é como se voltasse ao ventre materno. Mas de repente ouço um sibilo e volto a sentir aquele choque frio, que me causa uma súbita vertigem de lucidez. Os sons regressam acutilantes, agressivos. O contínuo zumbir dos automóveis, a cacofonia das buzinas no tráfego congestionado, as sirenes angustiadas pela urgência anónima. E tudo isto parece próximo e distante ao mesmo tempo. Sinto um novo impacto gelado, desta vez na palma da minha mão e um reflexo faz-me fechar os dedos na tentativa de apanhar aquele invasor inoportuno que não me deixa deslizar docilmente para a inconsciência. Esfrego os dedos uns nos outros e sinto uma alteração no senso do tacto, que não consigo identificar de imediato, mas que de súbito me surge como uma epifania. Estão molhados. É agua.

Arregalo os olhos e agito a cabeça, tentando livrar-me do torpor e das cadeias de pensamentos recursivos que desabam dentro de mim, como uma fractal eternamente repetida de ideias que são sempre a mesma ideia, que se transforma num martelar metálico no interior do crânio. E num espasmo vejo uma torrente de estrelas cintilantes precipitando-se do céu na minha direcção e quando elas me atingem é como se fosse trespassado por um milhão de agulhas aguçadas e gemo de dor, mas depois apercebo-me que não dói.

Não é dor, de facto, mas ao mesmo tempo parece que me abre feridas na pele.

Não é dor, é frio.

Começo a ouvir um crepitar à minha volta e surge-me uma palavra na memória que nos insondáveis caminhos do pensamento me traz um significado que torna tudo claro.

É chuva. Apenas chuva.

Que se passa comigo, que já nem reconheço o fustigar de um aguaceiro?

Lentamente, vou ficando ensopado e o violento choque térmico traz-me ainda mais para perto da consciência. Olho em volta. Está escuro. Estou num beco escuro e malcheiroso. Fede a urina e a podridão. Na verdade apercebo-me que estou no meio de sacos do lixo e que o crepitar que me rodeia é causado pelo impacto da chuva no plástico dos sacos. O cheiro é pungente e sinto uma náusea redobrada, uma angústia que me surge das entranhas como se elas se quisessem evadir de dentro de mim.

E vomito.

Vomito para cima de mim próprio e começo a sentir no peito um calor que contrasta com o frio da chuva, mas que depressa desaparece, sobrando apenas um cheiro ácido e uma sensação viscosa.

Olho para o outro lado e vejo um par de olhos amarelos, escondidos na penumbra. É um gato. Está agachado debaixo de um contentor e fita-me fixamente. A chuva lava o chão enegrecido e vejo uma corrente de água escura a ser arrastada para o esgoto. A ela juntam-se vários afluentes e há um deles que me desperta a atenção pois a sua cor contrasta com a dos restantes. É um pequeno riacho de um vermelho-vivo, que ao juntar-se à corrente principal se dissolve no meio da massa escura que jorra pelo dreno, com um borbulhar apaziguante. Sigo com o olhar este rio vermelho em busca da sua fonte e é com surpresa que me apercebo que ele surge debaixo de mim. Há uma enorme poça vermelha debaixo do meu corpo, que se começa a dissolver com a água da chuva e a ser arrastada por ela.

Olho para a minha camisa e vejo-a ensopada de vermelho em toda a zona do ventre e com um sorriso angustiado começo a perceber. Na verdade, agora que recobrei uma boa parte da consciência começo a sentir a agulhada persistente logo abaixo do estômago e uma dor lancinante nas tripas. Levanto a camisa e vejo um buraco transversal a rasgar-me a barriga. Não tem mais de três centímetros de comprimento mas sangra abundantemente.

A náusea regressa. O estado de choque fez-me perder por completo a noção do tempo, fez-me mesmo esquecer durante instantes o comprido cutelo que me trespassou. Não deve ter acontecido há mais de cinco minutos e não fosse o fustigar da chuva eu já estaria agora a dormir o sono eterno.

Mas quis o destino que eu assistisse consciente ao fim da minha vida.

O mundo está prestes a chegar ao fim e no entanto a cidade continua indiferente, sempre zangada, os carros a buzinar, as sirenes a queixarem-se, os transeuntes a apressarem-se.

Eu vou morrer e a única testemunha disso vai ser um gato vadio.

A forma como ele me olha fixamente faz-me sentir que pelo menos ele é solidário para comigo, pelo menos ele não está indiferente. Por um momento interpreto o seu olhar como um mudo apelo à minha coragem e sinto-me agradecido.

E então rio-me com as poucas forças que tenho.

Estupor do gato. Só me olha assim porque tem medo de mim, que o tente atacar.

Não podia haver sentimento mais despropositado neste momento.

O meu riso transforma-se num choro baixinho, agoniado.

O gato tem medo.

Ele nem sabe o que é ter medo.

Medo tenho eu. Sinto-me apavorado. Em pânico.

Pois eu sei neste momento que estou a morrer.

E sei-o com uma clarividência crua, ingente, desesperante.

Vou morrer aqui neste beco escuro.

Fui assassinado.

E então lembro-me dos passos que se afastaram do beco, minutos antes.

Os passos do meu assassino.

E então lembro-me de como tudo aconteceu. Lembro-me de Pandora.

E sinto o peso da tragédia da minha vida abater-se sobre mim.

Pandora é a minha namorada, já desde há dois anos. Não me quero gabar mas neste campo não me safei mesmo nada mal - ela é um espectáculo de miúda: uma loira de vinte e oito anos, alta, inteligente, com um corpo fenomenal, enfim, completamente estonteante.

Conheci-a num bar e a química foi imediata. Sentei-me ao balcão e ela chamou-me logo a atenção. Trocámos olhares e sorrisos durante uns minutos e então ela veio ter comigo para me pedir lume. Acendi-lhe o cigarro, ela puxou uma boa baforada de fumo e expirou lentamente, com sensualidade. Ofereci-lhe uma bebida e começamos numa conversa amena que se prolongou por umas boas horas. Nessa mesma noite, já bem embebidos, estávamos enroscados num quarto de hotel a fornicar que nem coelhos. E como ela era extraordinária na cama! Fizémo-lo três vezes nessa noite e quando chegámos ao fim da última caí para o lado de exaustão.

No dia seguinte quando acordei ela já não estava lá, mas o seu aroma inebriante ainda pairava no ar. Ainda procurei por um bilhete, uma nota escrita à mão, mas ela não tinha deixado nada para lá do seu perfume. Obviamente que para ela tinha sido apenas uma noite de diversão, mas eu… eu fiquei completamente apanhado por aquela mulher e não a ia deixar escapar com aquela facilidade.

Nessa noite voltei ao mesmo bar. Como ela não estava lá sentei-me e esperei, mas ela não apareceu.

Obsessivo, isto não foi o suficiente para me fazer desistir. Passei a ir àquele bar todos os fins-de-semana na esperança de a encontrar e houve um dia em que finalmente a vi. No entanto, nesse dia não pude fazer nada pois ela estava acompanhada por um homem austero, dos seus cinquenta anos, que devia ser o pai dela. Senti-me intimidado e mantive-me no meu canto, mas apesar de tudo senti que tinha sido um bom sinal. Ela voltara ao mesmo bar uma segunda vez, por isso era de esperar que voltasse uma terceira.

Continuei a frequentar o bar assiduamente. Houve noites em que o empregado de balcão me disse que ela já tinha estado lá naquele dia, mas que saíra entretanto. Isto alimentava a minha frustração, ao mesmo tempo que me motivava para não desistir.

Ao fim de algumas semanas a minha paciência foi finalmente recompensada. Encontrei-a lá com duas amigas e não perdi tempo. Aproximei-me, sentei-me ao pé delas e apresentei-me. Ela olhava para mim com um certo embaraço, mas eu atirei umas piadas que desanuviaram o ambiente e em breve sentiu-se novamente à vontade comigo.

Nessa noite levei-a num passeio romântico, junto à margem do rio, comprei-lhe flores e segredei-lhe palavras bonitas ao ouvido.

Inicialmente parecia não estar disposta a um compromisso sério, mas encontro após encontro fui tentando conquistá-la. Levei-a a jantar aos mais finos restaurantes, levei-a ao cinema e a espectáculos, ofereci-lhe prendas e tive com ela longas conversas enquanto olhávamos para o luar.

Como disse no início, sempre houvera uma química entre nós os dois. Ela eventualmente também o percebeu. Tornámo-nos namorados.

Ambos tínhamos uma vida ocupada por isso não nos conseguíamos ver muitas vezes, pelo menos não tantas quanto desejaríamos. Mas sempre que tínhamos hipótese juntávamo-nos, passávamos a noite juntos, jantávamos e ríamos e no final da noite eu trazia-a para o meu apartamento onde fazíamos amor apaixonadamente.

Com o passar dos meses a relação foi-se consolidando, tornando-se mais íntima, e em mim começou a crescer a evidência: Pandora era a mulher da minha vida. Eu amava-a, adorava-a, só queria estar com ela, passava os dias a antecipar os meus encontros com ela, ela era tudo o que eu queria. E pela maneira como as coisas iam, estava certo que ela sentia o mesmo por mim.

Foi assim que ontem à tarde fui à joalharia e comprei um belo anel de noivado, para a pedir em casamento. Hoje passei o dia nervosíssimo, na antecipação de me declarar à minha amada.

Esperei por ela no sítio onde costumávamos encontrar-nos e o tempo parecia nunca mais passar. Trazia comigo o anel no bolso, uma rosa vermelha na mão e muita água-de-colónia no pescoço.

Por fim ela chegou.

Estava linda, linda de morrer.

O seu olhar deixou-me hipnotizado.

O seu andar deixou-me louco.

Os seus lábios.

Os seus cabelos.

Prostrei-me de joelhos ali mesmo, no chão, à sua frente, e tirando o anel do bolso pedi-lhe que se casasse comigo, pois o que eu mais queria neste mundo era viver junto dela, envelhecer junto dela, morrer com ela.

Ela, a paixão da minha vida.

O que se passou a seguir aconteceu muito rápido.

Ela virou-se para trás e com ar horrorizado gritou um nome que me soou familiar.

Levantei-me e percebi o que se passava.

Tratava-se do homem do casaco vermelho.

Ele aqui, outra vez. A arruinar o momento mais belo da minha vida.

Caminhava em passadas largas na nossa direcção, os dentes cerrados, um olhar tresloucado.

No passado, já o vira mais do que uma vez a falar com Pandora.

Não gostava da maneira como ele falava com ela, mas não me quisera intrometer.

Não sabia quem ele era, provavelmente um ex-namorado perseguidor.

Já tinha vindo ter comigo algumas vezes, a ameaçar-me, a dizer que já estava a passar das marcas.

Nunca fui um valentão e por isso nunca o enfrentei, mas não seria ele que me faria desistir da mulher que eu amava.

Agora, chegava um momento fatídico. O homem do casaco vermelho aproximava-se com um ar ameaçador.

Senti que Pandora estava assustada. Senti que tinha de a proteger.

Nunca fui um valentão, mas soube que naquele momento tinha de mostrar a minha fibra. Enchi-me de coragem, cerrei os punhos, entrepus-me entre ele e Pandora e preparei-me para confrontá-lo.

Estendi os braços, tentando fazê-lo parar, mas vindo não sei de onde, recebi um formidável soco no queixo, que me atirou instantaneamente ao chão, onde ainda recebi uma fenomenal carga de pontapés.

Depois, o homem puxou-me pelo colarinho e começou a arrastar-me pelo pavimento. Completamente zonzo das violentíssimas pancadas que tinha recebido não ofereci qualquer resistência.

Fui assim, de arrasto, parar a este beco onde jazo agora.

Quando chegou perto dos contentores do lixo, o homem do casaco vermelho pegou-me pelas abas da camisa e com uma força extraordinária levantou-me no ar.

Olhou-me nos olhos, sondando-me.

E eu soube que nunca poderia fazer nada contra ele.

Ergui as mãos, submisso.

Ele olhou para trás, para a entrada do beco, onde se via a rua deserta.

Olhou em volta e para cima, para as janelas dos prédios circundantes.

E então tirou do cinto uma grande faca aguçada, tapou-me a boca com uma mão e com a outra desferiu um golpe profundíssimo no meu estômago.

Os meus olhos arregalaram-se.

Pude ver a sua boca arreganhada, a fúria contida no seu olhar. Fitou-me durante alguns segundos e torceu a lâmina dentro das minhas entranhas antes de a puxar cá para fora, violentamente.

Com a mão que ainda me tapava a boca começou a empurrar-me para o lado e para baixo, fazendo-me cair no meio de um monte de sacos de lixo.

Neste momento já eu estava em choque, mas ainda me lembro de o ver retirar um pano branco do bolso, com o qual limpou a lâmina da faca e as mãos. Atirou o pano para os meus pés e cuspiu-me para cima com desdém.

Afastou-se com as mesmas passadas rápidas, o som dos seus tacões ecoando pelas paredes do beco.

Agora, moribundo, no limiar da inconsciência, lamento a tragédia da minha vida. Perdi a mulher que amava e nem uma só vez lhe beijei os lábios.

Era tudo o que queria agora. Um simples beijo da minha amada.

Mas ela sempre recusou beijar-me.

5 Comments:

Vanessa said...

pista: as garotas de programas n beijam na boca. ;)

Sonat said...

lol, isso não vale, são SPOILERS

Venessa said...

mas é k ta dito em brasileiro, por isso so as raparigas é que percebem!!

Sonat said...

lol...

Porque é que te chamas venessa? ;)

vEnessa said...

axo k da um certo estilo!